Temporada 2 · Capítulo 17

A ÚLTIMA BATALHA DO GUARDIÃO

Arcânia presenciava, mais uma vez, uma batalha sangrenta. O Reino das Fadas estava em pedaços. As florestas ardiam em chamas, as árvores tombavam, e por todos os lados havia gritos de desespero. Fadas, gnomos, homens, elfos, animais e tantos outros seres caíam diante das bestas, que tinham recebido apenas uma ordem: matar e exterminar todos naquele reino. Após o avanço devastador das criaturas, as fadas começaram a evacuar os sobreviventes em direção à praia. O pequeno castelo do Reino das Fadas, onde estavam aqueles que não sabiam lutar, também foi invadido. As criaturas avançaram pelos corredores e salões, destruindo tudo e aniquilando aqueles que ali buscavam proteção. Algumas fadas guerreiras tentaram impedir o avanço, mas uma nova leva de minotauros, ainda maiores e mais fortes, surgiu diante delas. Era difícil contê-los. As guerreiras eram abatidas rapidamente, sem que tivessem sequer tempo para reagir. A música daquele momento era apenas uma: a música da dor e do sofrimento. Os poucos que conseguiam escapar corriam desesperadamente, procurando qualquer lugar onde pudessem se esconder. O plano de Eroim finalmente se cumpria. As fadas estavam sendo exterminadas sem que ele sequer precisasse estar presente na batalha. Assim, conservava seu exército, preservava suas forças e mantinha sua soberania enquanto seu inimigo era destruído diante de seus olhos.

Por mais que não parecesse, ainda havia muita luta acontecendo. Próximo ao castelo, Crocoss, o guardião do reino, permanecia de pé, aniquilando milhares de bestas com seu poder. Mas aquilo já não era apenas uma batalha de força. Eram milhares de criaturas contra um único guardião. Era impossível alguém resistir lutando por tanto tempo. Mas Crocoss permanecia firme. Com seu poder, fazia as raízes se erguerem do solo e atravessarem várias bestas ao mesmo tempo. As que tentavam fugir eram imediatamente puxadas de volta, enquanto as raízes as arremessavam contra o chão repetidas vezes até que seus corpos não se movessem mais. Naquele momento, a fúria de um guardião havia despertado. E era incontrolável. Não haveria piedade. Crocoss absorvia a energia da terra e multiplicava seus galhos pontiagudos, que percorriam a floresta em todas as direções, procurando qualquer criatura que se aproximasse. Algumas bestas gritavam para chamar ainda mais de suas companheiras, mas isso apenas fazia Crocoss lutar com mais intensidade. Seu grito ecoava como o de um titã, fazendo a própria terra estremecer. Algumas das criaturas mais fortes começaram a surgir. Mesmo assim, uma após outra, eram destruídas pelo poder da natureza viva que existia dentro de Crocoss.

Crocoss avançava pela floresta, procurando cada vez mais bestas. Ele as destruía e utilizava seus próprios martelos para esmagar outras criaturas que se aproximavam. Sua força era descomunal. Enquanto avançava, começava a enrolar os corpos das bestas derrotadas com galhos e raízes, preparando o terreno para que, depois da batalha, fosse mais fácil limpar aquela parte do reino. Ao chegar mais à frente, avistou enormes minotauros avançando em sua direção. As criaturas ergueram seus martelos e desferiram golpes violentos, destruindo parte de suas raízes. Crocoss recuou por um instante, mas logo as raízes envolveram os corpos dos minotauros, prendendo-os completamente. Com um único movimento, ele os arremessou contra o chão. Depois, os galhos se fecharam ao redor de seus pescoços. Crocoss os derrotou. Mas naquele momento sentiu sua força começar a desaparecer. Sua energia já não era a mesma. Foi então que algo chamou sua atenção no céu. Criaturas voadoras começaram a descer entre as árvores. Crocoss imediatamente lançou suas raízes contra elas, prendendo-as antes que pudessem alcançar o chão. Até então, aquilo não representava um grande problema. Mas, depois de derrotá-las, Crocoss chegou a beira de uma árvore. E ali encontrou Bloom morta. Por um instante, todo o barulho da batalha pareceu desaparecer. Crocoss ficou imóvel diante do corpo dela. Sua alma doeu. E aquela dor despertou ainda mais seu poder. Ele se aproximou lentamente do corpo de Bloom e, com cuidado, fez plantas, flores e cogumelos nascerem ao redor dela. As raízes envolveram seu corpo como se fossem braços, protegendo-a. Era uma despedida. Crocoss permaneceu em silêncio por alguns segundos, permitindo que Bloom partisse em paz. Mas, ao fundo, entre as árvores, criaturas semelhantes a pequenos dragões começavam a descer.

Elas correram em sua direção e lançaram fogo como verdadeiros dragões. As raízes de Crocoss começaram a queimar, dificultando sua defesa. Mas aquele era apenas o começo. Uma nova leva de minotauros, ainda maiores, surgiu entre as árvores. Seus martelos atingiam as raízes com tanta força que pedaços delas voavam para todos os lados. Crocoss também era atingido. Seu corpo começava a se despedaçar pouco a pouco. Para conseguir se regenerar, ele fez o chão explodir em raízes pontiagudas, criando uma barreira que impedia as bestas de se aproximarem por alguns instantes. Precisava de tempo. Precisava apenas de alguns segundos. Mas as criaturas voadoras atacaram novamente. Do céu, lançaram enormes rajadas de fogo contra Crocoss. Ele gritou. As chamas queimavam seu corpo e destruíam suas folhas e raízes. Então, no ápice de sua raiva, Crocoss ergueu suas raízes o mais alto que conseguiu. Elas alcançaram as criaturas voadoras, agarrando-as no ar e lançando-as violentamente contra o chão. Uma após outra, caíram. Suas forças estavam se esvaindo. Mas, mesmo assim, Crocoss havia destruído grande parte da força de ataque do Reino das Bestas. Por alguns instantes, em sua mente, surgiu a imagem de Gaia. Ela o observava. E, de alguma maneira, seu olhar o tranquilizava. Era como se sua antiga criadora estivesse dizendo que sua tarefa estava sendo cumprida. Crocoss respirou fundo. Sentiu uma última onda de força atravessar seu corpo. E voltou a lutar. Mais e mais bestas caíam diante dele.

Crocoss já não conseguia se proteger apenas com seu poder da natureza. As chamas das criaturas eram fortes demais e destruíam suas folhas e raízes a cada instante. Seu poder enfraquecia rapidamente. Mas ele não se dava por vencido. Esticava seus braços e atravessava as bestas com suas raízes, prendendo seus corpos e esmagando-os até a morte. O sangue se espalhava pelo ambiente, misturando-se às cinzas e chegando a apagar algumas das chamas que consumiam a floresta. De longe, era possível escutar os gritos do guardião do Reino das Fadas. Ele lutava sozinho contra milhares. E continuaria lutando até que suas forças acabassem. Mais criaturas surgiam. Mais criaturas eram abatidas. Até que Crocoss ouviu algo diferente. Gritos. Gritos de fadas pedindo ajuda. Ele imediatamente correu naquela direção. Ao chegar, encontrou inúmeras bestas minotauro cercando algumas fadas. As criaturas as esmagavam por puro prazer, sem qualquer piedade. Crocoss não pensou e penas avançou.

Crocoss expandiu seu corpo de raízes, tornando-se ainda maior, e correu para atacar os minotauros. Mas não chegou a tempo. As fadas já estavam mortas. Os minotauros então voltaram sua atenção para ele. Crocoss não se protegeu. Apenas observou as fadas caídas. Aquela cena o destruiu por dentro. Era como se, mesmo depois de tudo o que havia feito, ele ainda não tivesse conseguido protegê-las o suficiente. As bestas começaram a gritar, chamando mais das suas para aquele lugar. Crocoss já estava sem um braço e com metade do corpo destruída. Os golpes dos martelos continuavam atingindo suas raízes, uma após outra. Ele já não conseguia criar novas raízes. Não conseguia se regenerar. Os ataques eram rápidos demais e não lhe davam tempo para recuperar suas forças. Então... Um som começou a ecoar pela floresta. Passos fortes, pesados, firmes. Crocoss reuniu o pouco de energia que ainda possuía e conseguiu eliminar algumas das criaturas. Mas então ele surgiu. Um minotauro ainda maior do que todos os outros. A criatura caminhou lentamente em sua direção. Crocoss levantou o olhar. O minotauro o encarou. Então soltou um grito tão poderoso que a própria terra pareceu estremecer. Crocoss permaneceu firme diante dele. Pouco a pouco, seu corpo começava a se regenerar. Mas, no fundo, ele sabia. Aquela era a hora. O momento de dar seu último golpe. O momento de descansar. O momento de finalmente voltar para os braços de sua criadora... Gaia.

A criatura se moveu tão depressa que Crocoss sequer teve tempo de reagir. O martelo do minotauro atingiu suas costas em um único golpe. Seu corpo foi dilacerado. Crocoss cambaleou para frente, tentando permanecer de pé. O minotauro se aproximou novamente. E o atingiu no peito. Crocoss foi arremessado para longe, caindo violentamente no chão. Por alguns segundos, ficou imóvel. Então o minotauro soltou um enorme grito. Como se fosse um chamado para a morte. As criaturas semelhantes a dragões surgiram novamente e lançaram uma gigantesca rajada de fogo contra Crocoss. As chamas o envolveram ainda vivo. O guardião gritou uma última vez. E então...

Crocoss finalmente se apagou. Sua energia vital desapareceu. Restou apenas seu corpo seco sobre o chão queimado, cercado pelas marcas de uma batalha que jamais seria esquecida. O Reino das Bestas havia sofrido uma das maiores baixas de seu exército graças à resistência de Crocoss. Milhares de criaturas haviam sido destruídas por ele. Havia permanecido sozinho até o fim. E agora... Poderia descansar em paz. Depois de alguns instantes, seu corpo seco começou a se transformar em cinzas. O vento soprou. As cinzas se espalharam pelo ar e percorreram o reino, misturando-se à fumaça e às folhas queimadas da floresta. Crocoss havia partido. Mas sua última batalha jamais seria esquecida. A batalha no Reino das Fadas se encaminhava para o fim. A maior parte do exército das bestas agora se concentrava próxima ao lugar onde a fada rainha estava. E, depois de tudo o que havia acontecido... Finalmente chegara a hora de descobrirem o verdadeiro poder da fada rainha Heliara.

Na floresta densa, depois do vilarejo próximo ao Reino Mágico, a Aliança dos Sete descansava após conseguir dormir por algumas horas. O lugar era lindo, repleto de árvores, flores e uma tranquilidade que parecia esconder algo. A floresta, porém, era enganosa. Cheia de mistérios. Por isso, não poderiam permanecer ali por muito tempo. Todos ainda estavam abatidos pelo que havia acontecido no vilarejo. Não conseguiram salvar ninguém. Antes de partir, apagaram as chamas e enterraram os corpos daqueles que haviam perdido a vida. A cena ainda permanecia na mente de todos. Mas agora precisavam chegar ao Reino das Fadas. Precisavam ajudar. E nada mais os faria parar. Kyrli diz: — Espero que Belchior tenha conseguido salvar Zafir e Zafiel... Espero que todos estejam a salvo. — Ronwthor os ajudaria a entrar no Reino Mágico, mas, mesmo assim, é uma missão perigosa. Elionor então responde: — Tenho certeza de que estão bem... Quer dizer... Talvez Ronwthor não esteja. Senti meu feitiço se desfazendo, como se ele simplesmente deixasse de existir. Talvez... ele não esteja mais vivo. Kyrli então diz: — Esperaremos pelo melhor! Todos carregavam preocupações e aflições em seus corações. Mas precisavam manter suas mentes firmes. O que os aguardava pela frente poderia ser ainda pior.

Nyssara percebeu os rostos abatidos e as preocupações de todos. Então ergueu as mãos. Pequenas chamas brilhantes começaram a surgir ao seu redor, dançando no ar como pequenas estrelas. Elas giravam em volta do grupo, iluminando seus rostos e trazendo um pouco de esperança àquele lugar. Todos ficaram encantados com sua magia. Nyssara sorriu e disse: — Ficai felizes. A sorte de estarmos vivos já é motivo de alegria, e ainda temos a oportunidade de ajudar na história de pessoas importantes! Ela olhou para todos. — Lamento pelas perdas de amigos e de pessoas que não mereciam tal destino. Mas devemos nos reenergizar e seguir em frente. Tomiro então responde: — Ela está certa. O caminho é árduo, mas, no fim, fará a diferença. Estamos todos aqui pelo mesmo propósito! Zenia e Zask concordaram. Folder então disse: — Estamos unidos por isso, e vamos continuar assim. Quero conhecer muitas fadas e fazer novas amizades por lá! Soube que também existem muitos elfos inteligentes que cuidam das plantas. Sempre quis conhecer aquele lugar, mas nunca tive a oportunidade de sair daqui. Talvez esse seja o momento que eu estava esperando... Uma aventura ao lado de amigos unidos! Ele sorriu enquanto se levantava. Os outros também se levantaram. Um por um, montaram em seus cavalos. A floresta ficou para trás. E a Aliança dos Sete partiu novamente em direção ao Reino das Fadas. Sem saber que, naquele momento, uma das maiores batalhas de Arcânia estava chegando ao seu capítulo mais decisivo.