Temporada 2 · Capítulo 16
A ASCENSÃO DE CELINDRA

Naquela época, quando Celindra foi salva por Romeo, ambos navegaram por muito tempo juntos. Romeo cuidou dela até que se recuperasse, pois estava fraca e debilitada. Se ele não a tivesse encontrado, certamente teria morrido afogada em alto-mar. Com o passar do tempo, os dois acabaram se apaixonando. Mesmo vivendo aquele sentimento pela primeira vez, Celindra nunca se abriu por completo com Romeo. Jamais contou o verdadeiro motivo de estar ferida em alto-mar. Para ele, disse apenas que havia enfrentado um dragão e fugido para muito longe pelo mar, até perder as forças e cair na água. Romeo acreditou em suas palavras e continuou cuidando dela. A cada dia, a relação entre os dois se fortalecia. Romeo contava suas aventuras pelo mar, falava sobre como sobrevivia e sobre sua boa relação com os comerciantes. Os peixes que pescava em alto-mar eram raros e muito valorizados. Aos poucos, Celindra conquistou o coração daquele pirata comerciante. Juntos, começaram a fazer planos. Romeo a apoiava em tudo, enquanto Celindra passou a ajudá-lo na pesca e nas demais tarefas do barco. Ela já havia contado a ele sobre seu desejo de governar um reino. No Reino das Fadas, nunca havia recebido apoio e não pretendia voltar para lá. Seu desejo era encontrar uma terra viva e rica onde pudesse erguer seu próprio reinado. — Eu sinto que nasci para isso, Romeo. Não posso deixar de lado essa minha vontade. Sinto que estou predestinada e jamais desistirei! Romeo respondeu com um olhar apaixonado: — Você nem deve! Sinto que será uma rainha maravilhosa. Eu ajudarei no que for preciso! Estamos indo em direção a uma grande ilha. Lá existe terra fértil, muitas frutas e animais. Poderíamos começar seu reinado por lá. O que acha? — Ninguém vem para esse lado de Arcânia. Celindra abriu um sorriso esperançoso. Concordou e permaneceu em silêncio por alguns instantes, quase sem acreditar que aquele homem estava disposto a acreditar em seus sonhos e, acima de tudo, que realmente acreditava que ela poderia ser uma boa rainha.

Após chegarem à ilha, Celindra colocou os pés na areia. Um arrepio percorreu seu corpo. Ela então olhou para Romeo e acenou com a cabeça, como se sentisse, naquele exato instante, que aquele seria o lugar onde seu reinado começaria. E ninguém poderia impedi-la. Os dois apaixonados aproveitaram aquelas terras. Corriam, brincavam, caçavam e treinavam suas artes de batalha. Afinal, Celindra era uma fada guerreira e jamais havia escondido isso. Estava sempre pronta para lutar. Mas agora também estava pronta para amar. Embora seu coração ainda escondesse ambições e acontecimentos perigosos. — Sabe, nada pode mudar meu destino, Romeo. Eu lutarei por isso. Lutarei para concretizar meus sonhos, custe o que custar. Não importa quanto tempo leve! Romeo a observava admirado por sua determinação. Admirava profundamente sua força e estaria ao seu lado para tudo o que precisasse. Romeo era um homem solitário. Vivia do comércio de pesca em alto-mar, mas também era um excelente manuseador de espada e possuía habilidade no combate corpo a corpo, utilizando seus conhecimentos sempre que necessário para se defender dos perigos das terras próximas ao Reino Mágico. Enquanto Romeo organizava a caça e a comida dos dois, além de cuidar do lugar onde estavam ficando, Celindra permanecia concentrada em organizar o início de seu reinado. Tudo já estava praticamente pronto em sua mente. Agora era hora de começar os preparativos para transformar seus sonhos em realidade. Romeo então disse: — É incrível como o amor pode mudar uma pessoa da noite para o dia. Encontrei você quando estava sem esperanças. Hoje me sinto vivo novamente e agraciado pela vida por ter você! Celindra o abraçou e o beijou, demonstrando seu amor. Era nítido que também havia se apaixonado. Mas nada seria capaz de tirá-la de seu foco. Ela o usaria para concretizar seus planos e, um dia, voltaria ao Reino das Fadas para mostrar todo o seu poder.

Celindra sentia-se novamente cheia de vida e poder. Estar naquela ilha apenas aumentava sua força de vontade para começar logo a erguer os muros de seu domínio. E, ao lado de um grande amor, tudo parecia mais fácil. Até porque Romeo possuía uma boa relação com várias pessoas de Arcânia, e Celindra já tinha percebido isso. Os dois desfrutavam daquele amor ardente, pronto para enfrentar o mundo, se fosse preciso. O sol brilhava intensamente sobre a ilha e, com a presença de Celindra, parecia permanecer parado sobre aquelas terras, como se o próprio céu reconhecesse seu poder e alimentasse sua força. Depois de aproveitarem ao máximo os dias na ilha, chegou o momento de colocar o plano em ação. Mas apenas os dois jamais conseguiriam erguer sozinhos as paredes de um reino. Romeo e Celindra partiriam em busca de pessoas que acreditassem no propósito dela e que talvez não tivessem outras oportunidades na vida. Mas não seriam pessoas escolhidas ao acaso. Celindra utilizava uma magia antiga, capaz de guiá-la até seres que carregavam rastros mágicos, criaturas que poderiam possuir habilidades além da compreensão. Somente através daquele feitiço ela seria capaz de encontrá-los. Os dois então entraram no barco e partiram rumo às terras de Arcânia, em busca daqueles que aceitariam sua causa e apoiariam seu reinado. Celindra pensou: — Eu os acharei. Esse feitiço me levará até os servos certos. Não importa onde estejam, eu os encontrarei! O dia estava lindo. O vento soprava sobre as velas e fazia o barco avançar o mais rápido possível. Até que chegaram às margens da praia. Dali, cavalgaram até um vilarejo abandonado, onde viviam apenas pessoas sem teto e sem esperança, sobrevivendo à espera de algo que pudesse mudar suas vidas. Foi então que Celindra sentiu uma força mágica vindo da floresta. Os dois correram naquela direção. Aquela presença era muito mais forte do que todas as outras que ela havia sentido no vilarejo.

Os dois chegaram a um bosque encantador, repleto de borboletas que dançavam pelo ar como pequenas partículas de magia. Sentado sobre uma pedra, um jovem de cabelos esverdeados e asas de borboleta os esperava com um sorriso. Era Aurelion, um ser que possuía habilidades divinas ligadas às borboletas. Ali, os três conversaram. Celindra o convenceu de que era seu destino estar ao lado dela, pois sua magia havia guiado seus passos até aquele lugar. Mas tudo dependeria dele para mudar sua vida de uma vez por todas. Aurelion acreditou em suas palavras. Para ele, a magia nunca mentia. Independentemente de aquela aliança levar ao bem ou ao mal, sempre existia um motivo maior escondido no futuro. Por isso, decidiu acompanhá-la naquela jornada e ajudá-la no que fosse possível. Naquele bosque, já não fazia mais sentido permanecer por muito tempo. Aurelion era sozinho e vivia protegendo aquele lugar. Mas talvez se aliar a uma causa pudesse finalmente dar um novo sentido à sua vida. Os três partiram após firmarem uma aliança e seguiram em busca dos outros que ainda seriam encontrados. Celindra, porém, disse que precisava voltar ao vilarejo. Havia uma presença mágica, ainda fraca, que continuava puxando-a naquela direção. E ela não poderia ignorá-la.

Ao voltarem para o vilarejo, Celindra correu pelas ruas lamacentas, procurando a origem daquela presença mágica. Romeo a acompanhava, enquanto Aurelion os aguardava na saída. Foi então que Celindra avistou duas meninas sentadas no chão, sujas, brincando entre as ruas abandonadas. Delas vinha uma força mágica. Celindra sabia que eram elas. Aproximou-se acompanhada de Romeo e começou a conversar com as duas. As meninas contaram que eram sozinhas e viviam ali pedindo ouro e comida para sobreviver. Eram apenas amigas que haviam se conhecido nas ruas, ambas sem família. Celindra lhes deu ouro e comida e contou o motivo de ter ido até elas. Sua magia havia guiado seus passos. E o destino das duas era deixar aquela vida para trás. As meninas então disseram seus nomes. Eram Lunara e Freya. Ao ouvir os nomes, Celindra sorriu para Romeo. Ela havia encontrado as escolhidas que sua magia indicava. As garotas famintas comeram tudo o que lhes havia sido dado enquanto ouviam a história e o propósito de Celindra. Freya e Lunara aceitaram mudar suas vidas e servi-la, acreditando que, ao lado dela, poderiam finalmente ter um futuro diferente. Então, os quatro partiram dali e encontraram Aurelion na saída do vilarejo. Seguiram rumo ao encontro dos restantes. Ainda havia outros sendo chamados pela magia que Celindra havia despertado. Dali, foram para outros lugares e encontraram todos os sete escolhidos que a antiga magia de Celindra havia guiado até ela, unindo seus destinos ao seu propósito. Mas não pararia por ali. Após deixarem aquelas terras, Romeo conversou com amigos das redondezas, que também decidiram se aliar a eles. Celindra, por sua vez, chamou fadas que conhecia e outros aliados que aceitaram seguir sua causa. Então voltaram para a ilha com o barco cheio. Cheios de novos propósitos. Cheios de esperança por um futuro melhor. O plano corria exatamente como o esperado. E, a cada semana que passava, mais aliados se juntavam ao propósito de Celindra, sem conhecer seus verdadeiros motivos para erguer aquele reinado.

A ilha estava cheia. Fadas, homens, elfos e guerreiros estavam todos juntos, construindo um novo reino ao lado de Celindra e Romeo. As construções se erguiam rapidamente, dando vida a um majestoso castelo dourado, com enormes dependências para todos os habitantes. Tudo era feito com extrema agilidade e de maneira discreta, para que nenhum rumor escapasse daquelas terras. Quando pessoas de fora se aproximavam, eram imediatamente abatidas, para que as informações sobre o novo reino jamais vazassem. Era uma regra primordial para Celindra. E aqueles que a desobedecessem seriam castigados com a pena de morte. Seu reinado traria a libertação do povo de Arcânia. Mas, para isso, se fosse necessário, haveria sacrifícios. Celindra estava sentada sobre uma pedra, observando as construções ao lado de Romeo. — Logo, logo estará pronto. Sinto-me quase em casa. Sinto-me quase completa, meu amor! Ela olhou para o castelo que começava a surgir diante de seus olhos. — Logo realizarei meu sonho junto aos que estão conosco e ao homem da minha vida! Romeo respondeu sorridente: — Isso me faz bem. Saber que você estará enfim completa e satisfeita. Nada será impossível daqui para frente. E eu estarei ao seu lado para protegê-la! Os dois caminhavam pelas obras, ajudando todos com água e alimentos e carregando tudo aquilo que fosse necessário. Em alguns momentos, Celindra também ensinava seus escolhidos a arte da batalha. E assim, pouco a pouco, tudo crescia e evoluía naquelas terras.

Após alguns anos de construções, tudo estava pronto. Seu reino havia sido finalizado. Um majestoso castelo dourado diante do mar, uma construção impecável e cheia de vida em meio às árvores daquela ilha. No dia da finalização, Celindra caminhou lentamente até dentro da água enquanto todos a observavam de longe. Ela avançou até ficar diante do castelo. Então ergueu as mãos aos céus. Naquele instante, parecia que o próprio sol havia se aproximado da ilha. Uma luz intensa cobriu aquelas terras. O brilho era tão poderoso que somente Celindra parecia capaz de contemplar toda aquela força. Ela se virou para o castelo. E então iniciou seu reinado. Seu novo reino teria um nome. Reino Celestial. Uma enorme onda de poder percorreu toda a ilha, envolvendo cada pessoa presente e enchendo seus corpos de vida e vontade. Era o poder da grande fada do sol. A partir daquele momento, ela governaria aquelas terras. — Está feito! Sua voz ecoou pela ilha. — O meu reino... o Reino Celestial está de pé! E, a partir de hoje, todos nós pertenceremos a uma nova era. Ao meu lado e servindo fielmente a mim, vocês terão o poder necessário! Celindra então ergueu os olhos para todos. — Mas, se me traírem, o meu sol, esse mesmo que está sob suas cabeças, os derreterá e os fará arder até a morte! Após aquelas palavras, todos se aproximaram dela, que ainda permanecia dentro da água. Um a um, curvaram-se diante da nova rainha. Até Romeo. Todos saudaram a nova soberana do Reino Celestial. Pétalas de flores eram lançadas ao ar enquanto Celindra caminhava em direção ao castelo pela primeira vez como rainha. Atrás dela, vinham todos os seus súditos. Até chegar ao trono. Celindra sentou-se e olhou para todos ao seu redor e então disse: — Que comece a nova era! Todos dentro do castelo gritaram. E as comemorações começaram.

Com o passar do tempo e o crescimento do reino, Celindra nomeou sete entre seus servos como os Guerreiros Celestiais. Eram eles: Freya, Althamir, Nuski, Aurelion, Lunara, Araknos e Thalíria. Todos haviam sido encontrados através do antigo feitiço mágico de Celindra, que a guiara até seres que, de alguma forma, possuíam poderes além da compreensão. Com sua ajuda, cada um desenvolveu suas habilidades ao máximo. Tornaram-se guerreiros extremamente fortes e passaram a fazer parte da guarda pessoal da rainha. Todos eram muito próximos de Celindra. Para alguns, ela era quase como uma mãe. Alguns possuíam um coração bom. Porém, nem todos eram dotados de amor e compreensão. O mais próximo de Celindra era Althamir, um poderoso mago sombrio. Ele possuía seus próprios interesses e era capaz de qualquer coisa para influenciar a rainha conforme seus desejos. Althamir era o único entre eles que, por ser mago, não possuía habilidades com espadas. Os demais as manejavam muito bem. Todos usavam roupas douradas e brancas e eram cobertos por ouro. A maioria, além de compartilhar suas funções como Guerreiros Celestiais, também haviam se tornado amigos. Com o passar do tempo, porém, alguns começaram a não compreender o motivo de Celindra ter se tornado tão raivosa. Parecia estar apressada para alguma coisa. Algo que eles ainda não conheciam. Ninguém podia sair das dependências do Reino Celestial. Celindra apenas dizia que precisavam permanecer escondidos até o momento ideal. A hora de revelar que existiam estava se aproximando. O Reino Celestial, sem dúvidas, havia se tornado um grande reino. Forte. Poderoso. Capaz até mesmo de enfrentar o Reino Mágico. Todos viviam em paz naquele lugar. Mas ninguém sabia, até aquele momento, quais eram os verdadeiros interesses de Celindra ao manter seu reino tão escondido do restante de Arcânia.

Os mares além das terras de Arcânia, próximos ao Reino Celestial, tornavam-se cada vez mais movimentados por estranhos. E as ordens permaneciam sempre as mesmas: Morte aos que se aproximassem. Celindra não permitiria que nada atrapalhasse seus planos. As ordens eram claras. Freya e Lunara tentavam conversar com Celindra, mas nunca eram ouvidas. Ambas não conseguiam entender por que precisavam eliminar inocentes apenas para impedir que descobrissem a existência do reino. Mas sempre eram repreendidas com raiva por Celindra. O único que conhecia a maior parte dos planos da rainha era Althamir. O mago possuía clones de diversas formas espalhados por vários reinos e mantinha sua rainha constantemente informada sobre tudo o que acontecia. Até mesmo Romeo havia percebido claramente a mudança no comportamento de sua amada. Certo dia, sentou-se à beira do trono e conversou com ela. — Meu amor, não podemos mais manter reféns na caverna. Inclusive, soube que alguns encontrados no mar foram mortos pelos guardas. Por quê? Ele respirou fundo. — Não precisamos matar ninguém. Não precisamos disso. Celindra então se levantou e respondeu: — Nada pode nos atrapalhar. Não saberem que existimos é um trunfo na guerra que virá. E eu, como rainha, preciso priorizar isso. Preciso zelar pelo meu reino. É algo que precisa continuar. E preciso que confie em mim! Romeo concordou e retirou-se dali chateado e abatido. Mas confiava que aquilo era para o bem do lar que haviam construído juntos. E, por isso, precisava confiar em sua amada.

Celindra dedicava-se todos os dias a treinar seus Guerreiros Celestiais. Ajudava-os a evoluir suas habilidades, pois sabia que seriam de grande valor para a proteção do reino. Ela conhecia o potencial de cada um. E, mesmo com todo o autoritarismo e bravura, havia momentos em que se tornava doce como uma mãe para eles. Fazia-os acreditar em seus ideais. Fazia-os acreditar que aquilo era o melhor para o reino. E também para eles. Todos sabiam que uma guerra chegaria no futuro. Precisariam estar preparados para tudo. Por isso, dedicavam-se a aperfeiçoar suas habilidades para proteger o reino contra o mal. Porém, o mal sempre estivera ali. Enraizado. Criando novas raízes nos corações. Espalhando mentiras e alimentando o ódio. Será que um dia descobririam toda a verdade sobre quem realmente era sua atual rainha? O mal é ardiloso. Às vezes, espera pacientemente pelo momento certo para mostrar suas garras. O mal se alimenta da bondade. Alimenta-se do amor divino dos outros. E, enquanto o Reino Celestial crescia sob a luz do sol... Uma sombra começava a se formar em seu coração. Estaria o Reino Celestial sendo lentamente engolido pelo verdadeiro mal?