Temporada 2 · Capítulo 15
O PODER DE UMA RAINHA

No Reino de Gelo, a batalha se intensificava a cada instante. O vento soprava com uma força cada vez maior, levantando a neve que ainda cobria as terras congeladas. O silêncio que antes dominava o reino havia desaparecido por completo. Agora, o som das espadas se chocando, do gelo sendo quebrado e dos gritos de batalha podia ser ouvidos de muito longe. Os mortos-vivos corriam por toda a extensão do castelo. Animais gritavam desesperados ao serem cercados e devorados pelas criaturas que se espalhavam pelas terras. Mesmo com a entrada do reino congelada, já havia mortos-vivos demais dentro daqueles muros. Eles destruíam tudo pelo caminho. Dentro do castelo, a rainha Veylar caminhava pelo grande salão do trono em direção à saída. Seu olhar permanecia atento, tentando compreender a dimensão daquele ataque. Então, ela ouviu passos. Passos rápidos. Cada vez mais próximos. Logo depois, um estrondo ecoou pelo castelo, como se alguma coisa tivesse sido derrubada ou quebrada para permitir que alguém entrasse. Veylar parou. Olhou para todos os lados. Embora tivesse visto parte do ataque pela janela, ainda era difícil acreditar que o Reino de Gelo havia sido surpreendido daquela maneira. Mas não havia mais tempo para dúvidas, ela era a rainha e protegeria seu castelo e seu povo, custasse o que custasse. O som dos passos aumentava cada vez mais, acompanhado por gemidos e rosnados que avançavam diretamente pelo corredor em sua direção. Veylar fechou os punhos. Ela já sabia que o reino estava tomado por aquelas criaturas. E agora elas haviam chegado ao seu castelo e era hora de eliminar os invasores.

Então, vários mortos-vivos surgiram pelo corredor, cercando Veylar. Eles avançavam lentamente, rangendo os dentes e estendendo as mãos em sua direção. Veylar permaneceu imóvel. Então, ergueu uma das mãos. De repente, enormes espinhos de gelo brotaram do chão ao seu redor, formando uma barreira cristalina que impedia as criaturas de avançarem. Veylar pensa: — Essas criaturas... realmente estão mortas. Eu sinto isso. Mas elas querem apenas matar! Ela respirou fundo, tentando controlar o medo que começava a tomar conta de seu corpo. — Estou com medo... mas preciso permanecer firme. Meu povo precisa da sua rainha. Mais mortos-vivos chegavam, eles se amontoavam ao redor da barreira, tentando atravessar os enormes espinhos. Os que avançavam eram imediatamente atravessados pelo gelo, ficando presos enquanto seus corpos se contorciam e seus gemidos ecoavam pelo salão. Mas eles não morriam e Veylar sabia que aquela barreira não seria capaz de contê-los para sempre. Porém, havia algo que a preocupava ainda mais. Ela sentia que algo poderoso estava se aproximando. Uma presença diferente, algo forte... e com uma imensa sede de sangue. Seu corpo tremia levemente, mas Veylar manteve sua mente firme. Ela não recuaria.

Alguns mortos-vivos começaram a atravessar os espinhos de gelo. Veylar imediatamente lançou raios mágicos contra eles, congelando e destruindo cada criatura que conseguia passar. A barreira ainda ajudava a conter parte dos invasores, dando-lhe tempo para eliminá-los aos poucos. Mas eles não paravam. Cada vez mais atravessavam os espinhos e Veylar continuava atacando incansavelmente. Seus raios mágicos atravessavam o salão como relâmpagos azulados, despedaçando corpos e congelando os mortos-vivos quase instantaneamente. Veylar raramente utilizava seu poder para o combate. Mas naquele momento, toda a extensão de sua magia de gelo começava a se revelar. Seu poder era imenso e os mortos-vivos se aglomeravam cada vez mais, e Veylar concentrava ainda mais energia em suas mãos, potencializando seus ataques e destruindo vários deles de uma só vez. O salão inteiro começava a se transformar em um campo de batalha congelado.

Veylar percebeu que daquela forma jamais conseguiria acabar com todos, precisava de algo maior, algo definitivo. Ela recuou alguns passos e começou a reunir toda a energia mágica que ainda possuía. Seu olhar ficou determinado. Veylar diz: — Chega de brincar! Onda mortal! Ela abriu os braços e uma poderosa aura azul envolveu seu corpo. Então, o chão do salão começou a congelar. Em um instante, enormes espinhos de gelo surgiram por toda parte, atravessando os mortos-vivos e destruindo todos aqueles que estavam ao seu redor. A magia era rápida e brutal. Quase não dava tempo para que os inimigos reagissem. Por alguns segundos, o salão ficou em silêncio. Veylar respirava com dificuldade. Aquele feitiço havia consumido uma enorme quantidade de sua força mágica. Parecia ter acabado com todos os invasores daquele lugar. Mas então... Passos novamente, eram muitos. Veylar arregalou os olhos. Aquele poder que sentia estava cada vez mais próximo, e vinha acompanhado pelas criaturas. Seu corpo voltou a estremecer, ela então correu em direção a outra saída do castelo, precisava encontrar uma maneira de escapar. Mas, ao chegar ao local, encontrou apenas destroços. A passagem estava completamente destruída. Não havia como sair por ali. Veylar então voltou correndo para o salão, procurando outra passagem.

Quando retornou ao salão do trono, Veylar parou. O lugar já estava novamente tomado por mortos-vivos. Mas havia algo diferente. Entre eles, uma criatura pairava no ar. Asas escuras se abriam sobre seu corpo enquanto ela voava lentamente pelo salão. Ela observava Veylar e sorria. Seu corpo exalava morte e suas unhas eram afiadas como lâminas, seus olhos eram vazios. Era Hayblood, a vampira serva do Ceifeiro. Veylar a encarou. Apesar do medo, sua mente permaneceu firme. Ela ergueu o rosto e falou: — Então é você quem lidera essas criaturas, não é mesmo? Me impressiona a agilidade de vocês em conseguirem chegar até aqui sem serem notados. Hayblood respondeu com certo sarcasmo: — Uma rainha traída... sempre as mesmas histórias, não é mesmo? Ela sorriu. — Sua própria serva abriu o caminho para nós! Você sempre foi odiada! Hayblood abriu os braços enquanto observava o salão. — Hoje o Reino de Gelo irá cair, assim como o Reino Doce caiu. Não existem mais palavras a serem ditas aos que devem morrer! Veylar ficou em silêncio por alguns instantes. Aquelas palavras atravessaram seu coração. Ela sabia exatamente de quem Hayblood estava falando. Boreal. Mas nunca imaginou que a situação chegaria àquele ponto. Veylar respirou fundo. — Vocês serão enterrados no gelo. Seus corpos ficarão presos aqui para todo o sempre! O Reino de Gelo vai resistir! Hoje vocês conhecerão o verdadeiro poder dos reis deste lugar. Prepare-se! Ela levou a mão ao peito. Seu coração estava pesado e sua mente estava em Boreal. Hayblood apenas soltou uma longa gargalhada.

As criaturas avançaram de uma só vez. Veylar ergueu as mãos e disparou vários raios mágicos, congelando os mortos-vivos antes que pudessem alcançá-la. Hayblood desviava dos ataques enquanto voava pelo teto do salão, rindo. Veylar, enfurecida, disparava raio após raio. Seu poder parecia crescer conforme sua raiva aumentava. Mas os mortos-vivos também aumentavam. Mais e mais criaturas surgiam pelas entradas do castelo. O reino inteiro estava infestado. Mesmo com a entrada da caverna congelada por Ded, ainda havia criaturas demais espalhadas pelo Reino de Gelo. Veylar pensa: — Não vou desistir! Vou matar todos! Hayblood então mergulhou em alta velocidade em direção à rainha, tentando atingi-la com suas garras mas Veylar reagiu rapidamente. Um poderoso escudo mágico surgiu diante de seu corpo. Hayblood colidiu contra ele e foi repelida para longe. Mas não desistiu. Ela voltou imediatamente. Suas garras golpeavam o escudo repetidamente. Uma, duas, dezenas de vezes. Até que pequenas rachaduras começaram a surgir pela superfície mágica.

Então... O escudo se partiu. Hayblood atravessou a barreira e atingiu Veylar com uma sequência brutal de golpes. Soco após soco, no rosto, no abdômen e no peito. Veylar cuspiu sangue e perdeu o equilíbrio, caindo de joelhos no chão. Hayblood pousou diante dela e segurou-a pelo pescoço, levantou seu corpo lentamente. Sorrindo. — Ninguém pode nos parar! Ela apertou ainda mais o pescoço da rainha. — A magia é fraca. Com a minha força, posso destruir o que eu quiser. Seu reinado acabou, querida! Veylar a encarava com ódio. Seu corpo já não respondia direito. Sua magia era poderosa, mas seu corpo continuava sendo frágil. Veylar diz: — Um reino só cai quando seus reis caem primeiro. Enquanto eu tiver forças, lutarei para proteger o nosso lar, custe o que custar. Ela respirou com dificuldade. — Vocês já são como essas criaturas... Veylar encarou Hayblood. — MORTOS! Hayblood sorriu. — Bravo, rainha. Ela aproximou o rosto. — Mas a rainha do Reino Doce era como você. E agora está enterrada no que sobrou daquele lugar. Seu sorriso aumentou. — Agora é a sua vez! As duas se encararam e a tensão parecia tomar conta de todo o salão. Os mortos-vivos haviam parado. Eles deixavam Hayblood cuidar de Veylar.

Veylar fechou os punhos. Então, inesperadamente, tocou o peito de Hayblood e ma explosão de energia congelante surgiu de sua mão. Um raio mágico atravessou o corpo da vampira e a arremessou violentamente para longe. Hayblood bateu contra uma das colunas do salão. Ao mesmo tempo, uma camada de gelo começou a se espalhar por seu corpo. Os mortos-vivos avançaram contra Veylar. Ela imediatamente disparou contra eles, destruindo um após outro. Enquanto isso, Hayblood começava a se levantar. Seu corpo estava congelando. Seus movimentos ficavam mais lentos. A raiva crescia dentro dela. Como aquela rainha ousava feri-la? Hayblood se preparava para atacar novamente. Veylar, porém, estava distraída destruindo os mortos que continuavam avançando. Então Hayblood percebeu algo. Seu corpo não respondia mais como deveria. De sua boca saía fumaça. Um arrepio percorreu sua pele. Aquele não era um simples raio mágico. O gelo estava começando a congelá-la de dentro para fora. Hayblood fechou os olhos e concentrou-se. Seu corpo começou a emitir calor. Pouco a pouco, ela conseguiu equilibrar novamente sua temperatura, quebrando parte do efeito congelante. Então abriu os olhos e estava pronta para atacar outra vez.

Veylar olhou para onde Hayblood estava. A vampira já se preparava para atacá-la. Quando Hayblood saltou em voo em direção à rainha, Veylar se virou rapidamente, sua magia explodiu. Ela ergueu o braço. E, em um instante, enormes espinhos de gelo brotaram do chão, atravessando os mortos-vivos que estavam ao redor. Mas não parou ali. Espinhos de gelo também surgiram do próprio corpo de Hayblood. Eles atravessaram sua carne. Hayblood foi pega de surpresa e seu corpo ficou preso entre os espinhos enquanto sangue escorria por suas feridas. Ela gemeu de dor. E então gritou: — Sua desgraçada! Vou devorar cada ossinho do seu corpo! Você vai sofrer tanto que vai desejar nunca ter existido! Veylar destruiu o restante dos mortos-vivos e voltou seu olhar para ela. — Você não vai sair daqui viva! Não existe outra chance. Eu vou dar a minha vida para isso! Hayblood, tomada pela fúria, começou a quebrar os espinhos de gelo com as próprias mãos. Um por um. Até conseguir se libertar. Seu corpo estava coberto por ferimentos profundos. Sangue escorria por sua pele. Mas, diante dos olhos de Veylar, algo ainda mais assustador aconteceu. As feridas começaram a se fechar rapidamente e a carne se regenerava. Os cortes desapareciam. Hayblood lambeu os lábios enquanto encarava a rainha. Veylar ficou assustada. A força daquela criatura era muito maior do que imaginava. Não importava o quanto destruísse seu corpo... Ela continuava se regenerando. Veylar pensa: — Não pode ser! O que é isso? Esse poder de regeneração... Não importa o quanto eu destrua seu corpo, parece que ela sempre consegue se recuperar. Veylar olhou para fora do salão. Então teve uma ideia. — O único jeito de acabar com ela pode ser congelando-a no lago... Ela respirou fundo. — Mas eu preciso sair daqui! Seu pensamento então voltou para Morgot. — Morgot... por favor, onde você está?

Hayblood então disparou em velocidade descomunal na direção de Veylar. A rainha concentrou toda a magia que ainda possuía. Seus olhos brilharam em azul. Ela começou a entoar antigas palavras mágicas. Então moveu o braço e o chão inteiro tremeu. Um gigantesco tornado de gelo surgiu diante dela. A massa congelante cresceu rapidamente, girando com uma força monstruosa. Hayblood e os mortos-vivos foram arremessados para o alto. O teto do castelo foi atingido. Pedras e blocos de gelo começaram a despencar. Aquela parte do castelo começou a desmoronar completamente. Veylar estava usando tudo o que ainda possuía. Aquela era a hora de mostrar o poder de uma verdadeira rainha. O tornado varreu os mortos-vivos, destruindo tudo ao redor e abrindo uma passagem para a rua. Veylar caiu de joelhos por um instante. Estava exausta, mas sentia algo. Morgot estava próximo, ela precisava encontrá-lo. Hayblood começou a se levantar debaixo dos destroços. Seu corpo novamente se regenerava, a fúria em seus olhos aumentava. Ela então chamou mais mortos-vivos. Mas aqueles eram diferentes. Uma nova linhagem de criaturas surgiu, eram maiores, mais fortes e mais rápidas. Corriam diretamente em sua direção.

Veylar viu a passagem aberta para a rua e não pensou duas vezes. Correu. Atrás dela, os mortos-vivos avançavam. E, logo acima, Hayblood ainda ferida se regenerando voava em sua perseguição. Veylar corria o mais rápido que conseguia. Suas pernas estavam pesadas. Sua respiração falhava. Sua magia estava chegando ao limite. Veylar pensa: — Preciso chegar logo até Morgot... ou até o lago. Nada do que eu faça parece ser capaz de parar essa criatura. Ela apertou os dentes. — Minhas forças estão chegando ao limite... Então, por um breve instante... Algo estalou dentro de sua mente. A conexão entre ela e Morgot. Uma sensação familiar. Era como se ele estivesse tentando avisá-la que estava chegando. Veylar fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo. E voltou a correr. Agora precisava chegar até ele. Ou até o lago. Qualquer um dos dois poderia ser sua última esperança.

Veylar e Morgot eram magos que haviam se apaixonado ainda jovens. Desde o primeiro encontro, os dois compartilhavam algo especial. Ambos possuíam grande afinidade com as magias de água e gelo. Com o passar dos anos, treinaram seus poderes juntos, aprofundando cada vez mais sua ligação com aqueles elementos. Pois, entre os magos, existia um fenômeno raro. Quanto mais um mago dominava determinado elemento, maior era a possibilidade de seu próprio corpo começar a se fundir a ele. Era por isso que Morgot possuía aquela aparência tão incomum. Seu corpo carregava as marcas de seu elemento. Uma prova viva de seu grandioso poder mágico. Juntos, Veylar e Morgot construíram sua história. E, com o passar dos anos, fundaram o reino que hoje era conhecido como Reino de Gelo. Morgot sempre esteve ao lado de Veylar. Protegia o reino de todos os perigos que ousavam se aproximar. Com o passar do tempo, Veylar começou a assumir cada vez mais decisões importantes sobre o reino, enquanto Morgot permanecia como seu grande protetor. Ele pouco sabia sobre o que acontecia além daquelas terras. Para Morgot, tudo o que importava estava ali. Seu reino. Seu lar. E Veylar. Seu amor por ela era incondicional, ele sempre a esperava. Sempre estava ao seu lado. E dedicava cada instante de sua existência à mulher que amava. Casados, os dois haviam feito uma promessa. Amar um ao outro para sempre. Até que a última gota de orvalho de gelo derretesse sobre aquelas terras. E, naquele dia, enquanto o Reino de Gelo lutava pela própria sobrevivência, aquela promessa estava prestes a ser colocada à prova.