Temporada 2 · Capítulo 13

LEMBRANÇAS

No Reino das Sombras, Toryel, Mirael e Azazel, após cumprirem sua parte no combinado com Eroim, estavam de volta às suas terras depois do último encontro com a Aliança dos Sete. Eles ainda estavam surpresos com o poder daquela fada que os tirou de cena rapidamente, mas já tinham cumprido sua missão. Os três alimentavam algumas das criaturas de seu reino, temidas por muitos: uma aranha gigante e um lobisomem maior do que eles. Ambas as criaturas haviam sido modificadas com o tempo convivendo naquelas terras malignas. Qualquer ser passava por mutações caso permanecesse ali. Era difícil sobreviver, pois naquele lugar havia as portas para um lugar terrível, onde só existia morte. Toryel diz: — Da próxima vez que eu ver aquela fada, vou quebrá-la com minhas próprias mãos! Azazel responde: — Fique à vontade. Na próxima, eu quero dar os pedaços que sobrarem deles aos novos mascotes. Sorriu ela, dando gargalhadas. Mirael diz: — Para o lado em que eles estavam indo, acho difícil voltarem com vida, pois os corvos já avisaram que as bestas estão no Reino das Fadas. — É só uma questão de tempo até devorarem tudo!

No Reino das Chamas, o Sr. das Chamas treinava intensamente seus poderes. Com seus soldados criados a partir de sua magia, ele tentava se aperfeiçoar ao máximo. Seu poder de controlar o fogo era fora do normal. Conseguia fazer a terra se abrir e a lava emergir, destruindo tudo e a todos. Seu braço direito, a Mensageira, observava de longe o treino de seu mestre. Ela ainda estava com o braço ferido depois da luta contra as duas fadas. Até hoje ainda não havia caído a ficha de que tinha sido ferida por aquelas fadas. Com isso, seu coração permanecia cheio de ódio. Ela sempre acreditou possuir um poder maior do que o delas, mas foi gravemente ferida e, caso seu mestre não tivesse chegado, as coisas poderiam ter sido diferentes naquela ocasião. Todo esse treino do Sr. das Chamas já era uma preparação para um futuro próximo. Ele sabia que Eroim, logo que acabasse com quem estava mais próximo, procuraria governar sobre os reinos restantes de Arcânia.

Já no Reino Mágico, Eroim estava à espera de Kraitos, que havia voltado de uma missão, e de Melian, que fazia uma investigação pelo reino. Após ambos retornarem, Eroim já os aguardava no salão de reuniões do castelo. Sua mente ia muito além do que poderíamos imaginar nessa guerra pelo poder. Kraitos havia sido enviado para além das terras de Arcânia, ao norte, atravessando o mar para investigar um possível reino que estava se erguendo por lá. Melian foi enviada em missão para descobrir o paradeiro dos antigos magos poderosos que serviam ao pai de Eroim durante seu reinado. Eroim diz: — Já estava na hora de retornarem! — As coisas têm andado por aqui! Melian, com uma voz calma e tranquila, responde: — Meu senhor, que bom que andaram para melhor. E a notícia que trago irá confortá-lo ainda mais. — Já sei onde estão todos! Kraitos diz: — Realmente os rumores eram verdadeiros, meu senhor! — Naveguei até o norte pelo mar e avistei coisas poderosas daquele lado, que inclusive nos vigiam daqui. Eroim se levanta, vai até a janela, observa a rua e diz: — Nada nunca passou despercebido por mim. Meu pai era tolo. — Mas eu sempre reparei em cada detalhe. Alguns acham que me enganam, mas encontrarão a morte! — Diga, Kraitos. Quero saber mais sobre esse novo reino. Kraitos então diz: — Não pude me aproximar muito, pois eles têm uma criatura no mar que os protege. Parece um kraken. — O que sei é que lá existem guerreiros, fadas e anões. Não são muitos, mas estão crescendo. — E o espião deles é um comerciante que frequenta bastante este reino. Eu o segui algumas vezes. Eroim volta a se sentar e diz: — Ok, é o bastante! — Dê um fim nesse espião! Logo darei andamento a um contato com esse novo reino. — Melian, isso leva até você. — Trouxe pelo menos um pertence de cada um? Melian responde: — Sim, senhor! Foi difícil, mas encontrei nas antigas casas onde ficavam aqui no reino naquela época. Eroim fala: — Perfeito! Na hora certa eu os invocarei. Por hora, você está dispensada! — Kraitos, finalize sua missão eliminando esse verme. Logo darei novas instruções. — Preciso agora ir ver meus magos que estão treinando a modificação de animais. — Vejo vocês depois! - Além disso ainda soube que meus prisioneiros escaparam, mas Faramir foi atrás deles, breve terei as cabeças deles. Eroim então se retira da sala. Sua mente estava cheia de ambições e maldades.

Dentro das dependências do reino, Romeo organizava os peixes que havia trazido para comercializar, porém notou uma movimentação estranha entre os guerreiros. Ele terminou de organizar tudo o que estava ali e se preparava para buscar o restante que havia ficado na carroça, fora dos muros do reino, na entrada da floresta. Romeo era esperto, um homem que conhecia o mar e sabia manusear uma espada para se defender. Sempre entrava e saía como queria, pois já havia conquistado a confiança dos guardas do reino. Seu peixe era o mais cobiçado da região e todos ficavam surpresos por ele navegar pelos mares além das terras de Arcânia e sobreviver.

Romeo então saiu pelo portão e dirigiu-se à sua carroça, na entrada da floresta, sempre acompanhando a movimentação e os comentários que seus ouvidos conseguiam escutar. Ao chegar à carroça, sentiu um calafrio. Reparou que um vento estranho começou a soprar, as árvores se movimentavam e os animais corriam. De repente, às suas costas, uma luz brilhou e um portal se abriu. Nele estava a imagem de Celindra, a fada rainha do Reino Celestial, que fica além das terras de Arcânia, no mar do norte. Romeo estava surpreso, pois ela jamais havia aparecido daquela forma. Provavelmente era algo sério. Celindra então diz: — Romeo, meu amor! — Que bom que estás bem! — Trago algo importante. Meus guardas, que voavam acima do mar, avistaram um pequeno barco que te seguiu na última viagem. Temo que algo tenha acontecido. — Eroim consegue sentir quem o observa. Infelizmente, acho que podem ter te descoberto, pois esse homem que estava no barco avistou nosso reino. Temo pela sua segurança. — Deixe tudo e saia daí. Meu coração está acelerado, por favor! Romeo, surpreso com a notícia, concordou, pois havia falhado em permanecer longe dos olhos dos enviados de Eroim. Era hora de abortar a missão, até porque já possuíam informações suficientes por enquanto. Romeo então, sem perder tempo, soltou seu cavalo da carroça e correu para a praia em busca de seu barco para voltar ao Reino Celestial. Pouco depois de sua partida, Kraitos já havia procurado por ele no mercado do Reino Mágico. Notou o abandono de seus peixes e encontrou sua carroça abandonada na floresta. De alguma forma, Romeo sentiu que havia sido descoberto e fugido. Kraitos relatou tudo a Eroim e, com certeza, provou da fúria de seu senhor, que ficou insatisfeito por ele ter perdido a oportunidade de capturar o espião. Kraitos então foi encarregado de vigiar as madrugadas no castelo como punição.

Quase no fim da floresta que liga o Reino Mágico ao Reino da Luz, Faramir cavalgava lentamente com seu cavalo, ambos feridos da batalha contra a feiticeira. Sua mente estava esgotada, seu corpo no limite, quase desmaiando, mas resistia firmemente, pois, se ali caísse, a morte era certa. Faramir não imaginava que a batalha teria tal fim, pois havia levado dois magos do alto escalão do reino. Ambos eram mestres da magia maligna, recomendados até mesmo por Eroim. Mas ele sabia que aquela feiticeira não era qualquer uma e que o resultado certamente havia sido consequência de seu imenso poder. Ele reconhecia isso. Sua mente só pensava em sobreviver naquele momento, em chegar ao Reino Mágico e receber ajuda. Algumas lembranças começaram a surgir em sua mente, relembrando momentos importantes que viveu na guarda do Reino Mágico. Nem tudo sempre foi guerra ou matar alguém; também houve momentos de alegria e de apoio aos que precisavam.

Faramir se recordou de quando um pequeno vilarejo das famílias de guerreiros do reino foi atacado pelos mortos do reino do Ceifeiro, sem autorização de Eroim, e todos os guerreiros da guarda foram ajudar os feridos que ainda estavam no local. Havia muita morte ao redor, mas o objetivo principal era salvar os que ainda estavam com vida, pois já não havia mais como lutar. Os mortos apenas haviam passado por ali, causando destruição e morte. Eroim prontamente enviou seus guerreiros para ajudar os feridos, e Faramir liderou a equipe nesse auxílio. As cenas eram terríveis no local, mas conseguiram salvar grande parte daqueles que ainda estavam vivos. Foi uma missão que até hoje permanece em sua memória, pois, tempos depois, as famílias presentearam todos os soldados do reino que estiveram ali ajudando naquele dia.

Faramir ficou responsável por permanecer naquele vilarejo por um tempo com sua equipe, protegendo aquele povo, pois não se sabia o real motivo daquele ataque. Nesse período, Faramir fez muitas amizades com os camponeses. A melhor parte era poder compartilhar suas experiências com as crianças, que adoravam ouvir suas histórias de bravura. Faramir sempre foi um guerreiro fora do normal e não escondia isso. Era afeminado, mas, ao mesmo tempo, um bravo guerreiro. Era apaixonado por homens que lutavam bravamente e sonhava, um dia, encontrar um grande amor no campo de batalha para viver com ele por toda a eternidade. Ser um soldado do Reino Mágico não era fácil. A morte podia encontrá-lo a qualquer momento, pois o reino sempre teve grandes inimigos ao redor de Arcânia. Mas Faramir permanecia protegendo tudo aquilo que o Pilar do Reino ordenasse, pois esse era seu voto: obedecer e cumprir tudo o que seu pilar mandasse.

Faramir encantava as donzelas por onde passava, mas a delicadeza não era de seu agrado. Gostava de admirar o pôr do sol e de imaginar que um dia teria seu próprio final feliz, sem precisar seguir regras. Em sua mente, só conseguia imaginar uma vida longe dos campos de batalha, admirando o pôr do sol ao lado de sua pessoa amada, cultivando suas terras e vivendo feliz pelo resto da vida. Entrar para a guarda o salvou da morte quando ainda era jovem. Seus pais faleceram por causa de uma praga, e ele acabou vivendo pelas ruas. Porém, através de um chamado da guarda, que recrutava novos guerreiros desde cedo, esforçou-se para seguir carreira, conseguir um teto e encontrar um novo propósito para sua vida. Mas nem todo coração é inteiramente mau. Às vezes, o momento impede que enxerguemos a beleza ou a bondade em corações frágeis. Por isso, sempre se permita conhecer alguém sem julgá-lo apenas pelo que ouviu dizer.

Em uma pequena cabana no meio da floresta que liga o Reino Mágico ao início das terras do Reino de Gelo, Zafir, Zafiel e Belchior encontraram o lugar abandonado.Ali, os três, já sem forças, entraram e se jogaram sobre o feno que havia no local para descansar. Seus pés estavam feridos de tanto correr e seus corpos haviam chegado ao limite. Não conseguiriam dar mais nenhum passo. A sorte dos três foi que no local havia cestas de maçãs, que provavelmente serviam de alimento para os cavalos. Eles comeram dois grandes cestos de maçãs para saciar a fome e caíram em um sono profundo. Nenhum guerreiro é forte o suficiente se seu corpo não o acompanha. Os três sabiam que precisavam daquele descanso para poder prosseguir. Agora, seguiriam rumo ao Reino das Fadas, e nada os impediria. Após dormirem por seis horas, Zafiel acordou e contemplou o pôr do sol. Em sua mente, muitas lembranças voltaram, e as lágrimas escorreram por seu rosto. Seu coração apenas desejava que nada daquilo estivesse acontecendo. Ela queria e precisava fazer a diferença de alguma forma. Zafir e Belchior ainda permaneciam dormindo, enquanto eram vigiados por Zafiel.

Em um pequeno vilarejo no coração da floresta, atrás do Reino Mágico, Giciel e Jasmine apareceram em uma das cabanas onde geralmente ficavam quando passavam por ali. Com um clarão, os três surgiram já dentro da cabana. Nawari ainda permanecia desacordada e em estado grave depois da batalha contra Faramir. Os dois tiveram dificuldades para colocá-la sobre a cama, enquanto Giciel utilizava todo o seu poder para acelerar a recuperação do corpo da feiticeira. Jasmine diz: — Irmão, já é o suficiente. Ela vai ficar bem, já estamos a salvo aqui! — Estamos bem longe daquele maldito. Precisamos nos recuperar também. Ele concordou, e Jasmine então pegou alguns alimentos que havia na cabana para que pudessem comer e recuperar as forças depois do ocorrido. Ambos sentaram-se à beira da cama e observaram a recuperação de Nawari.

Giciel e Jasmine sabiam que Nawari sairia daquela situação, pois ainda havia muito a ser feito pelos vilarejos ao redor. A principal missão deles sempre foi ajudar aqueles que precisavam. Por isso, não possuíam um lar fixo. Por onde passavam, davam alimento aos que não tinham nada, curavam os feridos e ajudavam os mais fracos com tudo o que podiam. Levavam alegria e esperança por onde passavam, e essa era sua missão de vida. Segundo Nawari, não havia neste mundo nada que valesse mais do que ajudar os necessitados. O mundo já estava caótico demais para se envolverem em outras coisas. Nawari serviu aos magos do exército do pai de Eroim em outra época, mas, ao presenciar todo o caos que os reinos de Arcânia provocavam, decidiu se afastar e dedicar sua vida a ajudar as pessoas. Pois a guerra só trazia dor e sofrimento, e não era esse o destino que desejava seguir. Ao encontrar Jasmine e Giciel ainda pequenos, teve ainda mais certeza de que queria dedicar sua vida a um propósito diferente.

Jasmine e Giciel gostavam da vida que levavam. Jasmine era sedenta por aprender com Nawari sobre feitiços e sobre como a magia poderia ajudar nos momentos de dor. Giciel sempre se encantava ao ver como a magia de cura poderia, em casos raros, até mesmo trazer os mortos de volta à vida. Ambos possuíam propósitos mágicos diferentes, mas sempre permaneciam juntos por onde passavam. Adoravam percorrer as estradas levando alegria àqueles que encontravam pelo caminho. Nawari era como uma mãe para eles, mas nunca escondeu a verdadeira história de suas vidas quando ainda eram crianças. Por mais que muitos queiram idealizar um propósito, a vida toma outros rumos e nos conduz por trilhas que, muitas vezes, são difíceis de compreender se realmente são o caminho certo. Mas somente o tempo dirá.