Temporada 1 · Capítulo 23
SUSSURROS DE FOGO E TREVAS

No Reino das Chamas, no grande salão incandescente, o Senhor das Chamas conversava com sua mensageira. As labaredas que rodeavam o trono ardiam de forma inquieta, como se sentissem o peso dos acontecimentos em Arcânia. - As coisas estão se movimentando por Arcânia - disse ele, com voz grave - mas isso não deve nos afetar. - Vamos seguir cuidando do que é nosso. Minhas terras são prioridade para nós! A mensageira, ainda com parte do braço enfaixado e queimado após o confronto com as fadas, respondeu: - As fadas lutaram bravamente, senhor. São um povo que tenta resistir… - Meu braço já era, mas pelo menos duas delas já se foram - comentou com um sorriso distorcido. - Nos aliarmos agora não faz sentido. Acredito que seja prudente esperar Eroim dar os próximos passos… - Assim, quando ele enfraquecer todos, Vossa Majestade poderá assumir o controle total de Arcânia. O Senhor das Chamas concordou com um leve aceno. Naquele momento, para ele, deixar os outros reinos caírem era o caminho mais fácil para ascender entre as ruínas.

No Reino de Luz Enquanto os reinos se moviam como peças de um tabuleiro em chamas, eles permaneciam isolados, um lugar silencioso e imutável. Kaimux e Lainux, as duas divindades do reino, observavam de longe o desequilíbrio que se espalhava por Arcânia. Eles não interferiam nos conflitos mortais, e raramente alguém ousava subir os longos degraus até o altar onde os dois se encontravam. Kaimux era a divindade do julgamento: todos que necessitavam discernimento em suas culpas e escolhas eram guiados até ele. Seu poder era a luz que revela a verdade. Lainux, a divindade feminina da sabedoria e dos conselhos, acolhia aqueles que buscavam orientação. Sua luz era calma, acolhedora e serena. Poucos visitavam o reino; muitos passavam por ali, mas raramente subiam as escadas. No entanto, ambos sentiam que, pela primeira vez em eras, algo maior que eles se aproximava, uma sombra tão densa que ameaçava a própria luz.

No Reino Mágico Ronwthor retornava de sua missão, caminhando pelo salão sombrio do castelo. Eroim já o aguardava no trono, com olhos flamejantes de ira. Ronwthor se curvou profundamente: - Meu senhor, está feito! - Haygor vai destruir aquelas fadas de uma vez, em pagamento ao favor que lhe deve - disse ele, sorrindo. Mas Eroim não retribuiu o sorriso. - Que bom que finalizou sua missão… - respondeu ele, com a voz carregada. - Mas sabe de uma coisa? Ele se levantou abruptamente do trono, os passos ecoando pelo salão. - Zafiel está com Belchior… seu companheiro de missões! - E sabe o que mais? - Zafir agora está com eles dois! Fui traído, Ronwthor. Duas vezes! -gritou, furioso. - Traído por pessoas que eu acolhi! E agora? Ronwthor respirou fundo antes de responder: - Lamento por isso, meu senhor. Inclusive, eu os encontrei no caminho. - Quase trouxe as cabeças de Zafiel e Belchior comigo… mas eles fugiram. - E lamento ainda mais a traição de Zafir. - Provavelmente ele os encontrou depois de nossa luta, próximo ao Reino das Bestas. Eroim cerrou os punhos. - Você os deixou fugir… mas já sei para onde estão indo. - Meus soldados os viram seguir para o Reino da Floresta. - Eu mesmo vou trazer a cabeça dos três. Ele encarou o chão por um instante, e murmurou: - Me trair… tudo bem. Mas viver? Aí já é demais. - Acredito que Haygor cuidará das fadas - completou. - Então eu cuidarei dos traidores. Ronwthor apenas se curvou e deixou o salão, exausto pela missão que havia concluído. O Reino Mágico continuava crescendo, mas não de forma saudável. Mais guerreiros, mais magos, mais crianças e adolescentes sendo arrancados de vilarejos atacados e treinados à força para formar o exército de Eroim. Aquele reino já não era mais um lar. Era um império de trevas, dominado por assassinos e corações corrompidos, onde a tirania reinava acima de qualquer vida. E a sombra de Eroim se espalhava por Arcânia como uma praga que, cedo ou tarde, alcançaria todos os reinos.