Temporada 2 · Capítulo 6

A CHEGADA DAS BESTAS

A guerra sempre traz consigo perdas. Não existe a escolha de não lutar quando um dos lados decide atacar. Arcânia sempre conheceria o caos da ambição dos reis, aqueles que desejam sempre mais, ou que se unem para destruir um inimigo. As cinzas que ficam marcam para sempre as memórias daqueles que resistem. Não sabemos quando a guerra chega, mas sabemos como resistir… e pelo que lutamos. Naquela manhã, no Reino das Fadas, o céu estava mais azul do que nunca. Não havia vento. As cigarras cantavam e os pássaros voavam para longe. Coelhos e outros animais terrestres se escondiam em suas tocas, como se já pressentissem a chegada de algo terrível àquelas terras. As fadas seguiam suas vidas normalmente. Ainda nem sabiam da destruição da Trilha na noite passada. As fadas guardiãs observavam o horizonte, onde uma fumaça escura se aproximava cada vez mais. A Fada Rainha ainda se alimentava após ter despertado, abatida pela destruição da Trilha, e se preparava para reunir todos. Por um instante, foi como se o tempo tivesse parado. Então as guardiãs avistaram um exército de bestas vindo dos céus e da terra, avançando rapidamente em direção ao Reino das Fadas. Um ataque surpresa. Sem hesitar, as trombetas soaram com toda a força. O som ecoou por toda a floresta, despertando aqueles que ainda descansavam. O chamado atravessava árvores, rios e colinas. As criaturas da floresta se assustavam, e as fadas sentiam o coração apertar. Aquelas trombetas nunca haviam sido tocadas antes. Era o alerta final. A morte se aproximava. E todos deveriam se preparar para o pior.

Heliara, ao escutar o som das trombetas, teve seu corpo paralisado por alguns instantes. Respirou fundo e ergueu os olhos aos céus, como se esperasse uma ajuda divina naquele momento tão terrível para a raça das fadas. A hora havia chegado. A hora de lutar. A hora de resistir com todas as forças. Apesar de tudo o que havia acontecido, aquela seria a prova final de que as fadas eram fortes, a raça que mantinha viva a continuidade do mundo de Arcânia. A Fada Rainha então se comunicou telepaticamente com todos os moradores do reino, levando sua voz diretamente às mentes de seu povo: — Meu povo! Seremos provados mais uma vez! — Peço que todos aqueles que não são guerreiros se dirijam ao castelo para se abrigarem ou sigam para a praia ao sul. Enfrentaremos uma grande batalha aqui, e preciso que apenas guerreiros, ou aqueles prontos para lutar permaneçam! — Seremos resistência. Seremos quem sempre fomos: fadas guerreiras! Lutamos por nossa raça e ninguém tirará nossa liberdade. Somos livres… e sempre seremos! — O escudo vai resistir por algum tempo, mas quando ele ceder… lutem! Lutem por si mesmos, lutem por nós, lutem pela vida e pela esperança! Então a Rainha gritou, com toda a força de sua alma: — PARA A BATALHAAAAA!

As fadas voaram em grupos em direção à entrada do reino. Outras avançavam por terra, sob a liderança de Vermax, que comandava o exército das fadas. Todos estavam determinados. Cansados de serem atacados pouco a pouco, sabiam que aquela era a hora de colocar um fim em tudo. Era lutar… ou morrer. Vermax chegou à entrada do reino com o exército posicionado atrás do escudo mágico. Do lado de fora, as bestas atacavam com brutalidade: golpeavam o escudo com força, lançavam chamas e flechas. Nos céus, um enorme dragão vermelho rugia enquanto disparava um jato de fogo devastador que enfraquecia rapidamente o escudo da Fada Rainha. Sobre o dragão estava Haygor, o Rei das Bestas. Ele gritava, bradando com fúria para encorajar suas criaturas. — Chegou a hora! Vamos nos alimentar de cada fadinha deste reino! — Acabou, Reino das Fadas! Aqui é o fim para todos vocês! As bestas intensificaram os ataques ao escudo.

Vermax observava o exército inimigo do outro lado da barreira mágica. Ele acreditava em seu povo e sabia que todos ali dariam a vida para exterminar cada uma daquelas criaturas. Mas a luta não seria fácil. Quando tentou enxergar além da linha de frente, percebeu algo assustador: o exército de bestas parecia interminável. Vermax então se virou para seu exército e ergueu sua espada. — Hoje será vida ou morte! — Deixem sair todo o ódio que guardam em seus corações! Essas criaturas do outro lado não sentem nada por nós. Elas querem apenas nos matar… e nos devorar! — Não se rendam! Resistam! Ajudem uns aos outros! — Vamos vencer esta batalha, e todo o reino de Arcânia saberá que as fadas são muito mais do que imaginam. Ele ergueu ainda mais a espada. — Vocês estão comigo?! Um coro ensurdecedor respondeu. — SIM! As espadas foram erguidas aos céus. Todos estavam prontos para dar tudo de si naquela batalha.

A terra começou a estremecer. Os gritos das feras ecoavam pela floresta enquanto o escudo começava a rachar, como um espelho prestes a se partir. Todos estavam a postos, magia e lâminas preparadas. O desejo de sangue vinha de todos os lados. Fadas, humanos, anões e outras raças que viviam no reino estavam prontas para lutar por seu lar. Em um piscar de olhos, o escudo se quebrou, se fragmentou no ar e se desfez como poeira mágica espalhada pelo vento. As bestas avançaram com fúria nos olhos, e as fadas avançaram sem hesitar. E então… a guerra começou. O primeiro impacto espalhou magia, sangue e gritos por todos os lados. Raios mágicos cortavam o ar. Espadas decapitavam bestas. Algumas fadas eram rapidamente abocanhadas pelas feras. Outras eram cortadas ao meio por machados brutais. Naquele campo de batalha, só existiam duas opções: matar ou morrer. Nos céus, bestas aladas enfrentavam fadas em combate mortal. No chão, a luta era ainda mais brutal. O chão rachava sob o peso da batalha, o fogo começava a consumir a floresta, e logo os céus se encheram de fumaça.

A batalha exigia o máximo de todos. Fadas disparavam flechas mágicas que matavam bestas com um único toque. Outras usavam lâminas encantadas que cortavam inimigos sem sequer tocá-los. As bestas tinham dificuldade em avançar devido à resistência da linha de frente das fadas, que lutavam unidas. Encantamentos rasgavam criaturas ao meio e o sangue lavava o chão. Gritos de dor e fúria ecoavam pela floresta. Vermax lutava com todo seu poder. Com raios devastadores, aniquilava várias bestas de uma só vez. Com sua velocidade, atravessava o campo de batalha, fatiando inimigos em sequência.

A primeira linha de frente das bestas finalmente caiu. Mas logo novas criaturas surgiram. Minotauros gigantes avançaram, empunhando machados enormes e exibindo uma força descomunal. Aos poucos, começaram a derrotar as fadas. Algumas já recuavam. Os ataques vinham de todos os lados. Vermax já se sentia fraco. Usar tanta magia cobrava um preço. Agora lutava principalmente com sua espada, tentando ajudar as fadas que eram capturadas pelas bestas. O calor também se tornava insuportável. O dragão de Haygor incendiava a floresta, e muitas fadas morriam queimadas.

Dos céus, Haygor observava tudo. Quando percebia que as fadas estavam destruindo muitas de suas criaturas, mergulhava com seu dragão e liberava uma chuva de fogo. Fadas eram carbonizadas instantaneamente. Ele voava mais à frente, espalhando chamas pelo exército das fadas e pela floresta. Ferir aquele dragão era quase impossível. Sua pele grossa e suas escamas protegiam-no dos raios mágicos. O fogo tomava conta de tudo e as fadas precisavam se proteger e reagrupar. Enquanto isso, Haygor procurava pela Rainha das Fadas. Seus olhos vasculhavam o campo de batalha. Então ele avistou, ao longe… o Salgueiro Sagrado. Ali estava a fonte da reprodução das fadas. E ele sabia exatamente o que precisava destruir.

O dragão de Haygor não apenas incendiava tudo. Ele também devorava qualquer fada que encontrasse. Não havia como se esconder. Com sua velocidade brutal, perseguia suas presas e as engolia vivas. Haygor sorria. A batalha parecia fácil. Mesmo tendo perdido a linha de frente, ele sabia que seu exército tinha força para destruir até gigantes, criaturas que um dia existiram em Arcânia. Seu exército lutava movido pela fome. Na Terra das Bestas já não havia comida suficiente. Fome e ódio dominavam seus corações. E isso os tornava um exército de monstros famintos que matavam tudo que encontravam.

Após romper a linha de defesa das fadas, as bestas começaram a se espalhar pelo reino destruindo casas e tocas. Arrancavam de dentro delas aqueles que tentavam se esconder. Matavam e os devoravam. O terror se espalhava. Não havia muitos lugares para fugir, exceto recuar para o castelo ou para a praia ao Norte, como havia ordenado a Rainha. As bestas adoravam aquile terror. E era por isso que seu exército era tão temido em Arcânia.

Na linha de frente, Vermax lutava não apenas contra as bestas… mas contra seu próprio corpo. Suas forças estavam se esgotando. Ele já não conseguia usar magia como antes. Seu corpo mal respondia à espada. Após receber golpes de uma das bestas, caiu de joelhos no chão. Mas ele sabia que não podia falhar. Cerrou os punhos. E começou a absorver energia das próprias criaturas ao redor. A magia correu pelo campo de batalha. Vermax estava decidido. Ele usaria tudo de si para aniquilar aquelas criaturas.

Então disparou raios devastadores, destruindo inúmeras bestas ao redor. As criaturas que voavam acima dele também foram atingidas. Após abrir espaço no campo de batalha, Vermax levantou voo e começou a destruir as bestas que atacavam as fadas no céu. Seus olhos queimavam com um fogo de ódio. Sem piedade, dilacerava inimigos com lâminas mágicas. O vento de suas asas derrubava bestas voadoras, que caíam no chão e eram abatidas pelas fadas que lutavam na terra. Era uma perfeita sintonia de combate.

Então, ao seu lado, como um enorme meteoro em chamas… O grande dragão vermelho passou rasgando os céus. Haygor estava montado nele. As fadas que voavam foram destruídas no impacto. Vermax sabia que aquilo poderia ser demais para ele enfrentar. Mas não recuaria. Ele via claramente a desvantagem causada pelo dragão. A criatura dominava os céus e incendiava tudo. Se nada fosse feito… A batalha estaria perdida. Vermax precisava agir. E rápido.

Ele voou velozmente para atacar pelas costas. Mas Haygor o avistou. O dragão girou no ar e, com um movimento brutal, atingiu Vermax em cheio com sua cauda. O impacto foi devastador. Vermax foi lançado de uma grande altura e caiu dentro da floresta. O golpe havia sido rápido… e completamente inesperado. Ao atingir o chão, seu corpo ficou preso entre árvores quebradas. Por alguns momentos… Ele perdeu a consciência. Seu corpo já não reagia. Magia demais. Esforço demais. Tempo demais lutando. E a batalha… estava apenas começando. O fogo aumentava. E os gritos da guerra se tornavam a verdadeira música daquele campo de batalha.