Temporada 2 · Capítulo 3
SOB CINZAS E CORRENTES

Nos dias atuais em Arcânia, Eroim chegou com Zafir e Zafiel de volta ao Reino Mágico. Sem hesitar, ordenou que ambos fossem lançados nas cavernas mais profundas, aprisionados até que ele decidisse exatamente o que faria com eles. Nas cavernas, Zafir e Zafiel estavam devastados. A morte de Clopem ainda ecoava como um grito em seus corações. Não sabiam o que havia acontecido com os outros… e agora se viam presos, impotentes, enquanto as fadas estavam prestes a serem atacadas pelo Reino das Bestas. Todo o plano para ajudá-las havia ido por água abaixo. Zafiel diz, chorando: — Não acredito que estamos aqui, presos, sem poder fazer nada, Zafir… absolutamente nada! — Somos inúteis! Belchior e os outros… como será que estão? Eu não me conformo! Zafir responde, cabisbaixo, mas tentando manter a firmeza: — Acalme-se… vamos recuperar nossas forças. Infelizmente, não podíamos fazer nada naquele momento. O senhor Eroim é forte demais. Agora precisamos pensar em como sair daqui… e ajudar. As grades da cela eram encantadas pelo próprio Eroim. Apenas alguém do lado de fora, com imenso poder… ou a chave correta… poderia libertá-los.

No Reino da Floresta, Elionor e Kyrli conversavam com Belchior, enquanto Ronwthor permanecia preso. Belchior havia se acalmado e entendido o motivo de Elionor tê-lo imobilizado: ele precisava respirar, pensar, agir com clareza. Agora que Zafir e Zafiel haviam sido levados, e as fadas estavam em perigo, não havia espaço para impulsividade, apenas estratégia. O reino havia florescido novamente com o poder dos magos. A vida voltara a pulsar na terra. Mas a torre que era o lar deles estava destruída, reduzida a escombros. Levaria tempo para reconstruí-la. E o tempo… era tudo o que eles não tinham. Ainda muito abalados pela morte de Clopem, tentavam traçar um plano. Kyrli diz: — Belchior, acredito que não temos tempo. Ficar parados aqui só nos atrasa ainda mais. Precisamos ajudar as fadas… mas agora também precisamos salvar Zafir e Zafiel. O que acha de ir procurá-los? Belchior responde, surpreso: — Eu não teria chances no Reino Mágico sozinho… mas eu quero salvá-los antes de ajudar as fadas. Elionor interrompe: — Ronwthor conhece todas as entradas e saídas do Reino Mágico. Ele pode nos ajudar. Ronwthor sorri, cruel: — Eu jamais ajudarei vocês. Esqueçam-nos. Eroim vai matá-los! — Deixem-me morrer aqui… e vão ajudar as fadas. Belchior, tomado pela raiva, parte novamente para cima de Ronwthor, mas é imobilizado outra vez por Elionor. — Belchior, ele não precisa querer — diz ele, firme. — Acredito que o senhor Kyrli concorde. Elionor se posiciona diante de Ronwthor e começa a pronunciar palavras mágicas antigas. A energia ao redor vibra. Um feitiço se forma, um encantamento poderoso que obriga Ronwthor a ajudar Belchior a chegar até Zafir e Zafiel, mesmo contra sua vontade. — Está feito! — declara Elionor. — Você será guiado por ele. — Enquanto isso, eu e o senhor Kyrli iremos buscar alguns aliados para ajudar as fadas. — Não temos tempo a perder. As fadas correm perigo! Kyrli concorda. Os magos se despedem de Belchior, deixando-o com Ronwthor — agora forçado pelo próprio destino a conduzi-lo até as entradas secretas do Reino Mágico.

Belchior, encarando Ronwthor diz em tom ameaçador: — Se você tentar qualquer coisa, eu mato você. — Por mais que esteja encantado, nunca vou confiar totalmente em você. Ronwthor responde, estranhamente calmo: — Não precisa confiar em mim. Vou levá-lo até lá… e ajudar aqueles que você ama. — Meus dias estão contados. Farei bom uso deles de qualquer forma. Provavelmente não sairemos todos vivos de lá. Eroim sempre sabe quando alguém com más intenções pisa naquelas terras. — Mas, com meu conhecimento, podemos ser rápidos… e salvar seus amigos.

Belchior então se senta ao lado dele e, com a voz mais baixa e sincera, diz: — Eu preciso ajudar Zafiel. Ela quer muito salvar as fadas… e eu quero ajudá-la. — Preciso ser uma pessoa melhor. Ela me fez enxergar o mundo de outro ângulo. — Não posso ir salvar as fadas e deixá-la para depois. Não dessa vez. — Vamos. Vamos encontrá-los… agora! Ronwthor apenas concorda com a cabeça. Ele é libertado das algemas mágicas, ainda sob o efeito do encantamento. Os dois correm em busca de cavalos. Precisavam chegar ao Reino Mágico o mais rápido possível. O tempo estava contra todos.

No coração da floresta, Kyrli e Elionor invocam duas criaturas místicas. Uma azul como os oceanos mais profundos; a outra verde como a própria essência da floresta. Ambas lembravam dragões antigos, mas sem asas — serpentes colossais e sábias, de olhos brilhantes e presença ancestral. Há muitos anos viviam ao lado dos magos, mas com o tempo se afastaram, buscando isolamento para escapar dos feiticeiros que caçavam seu poder. Kyrli e Elionor ainda mantinham laços com seres que viviam floresta adentro — criaturas que preferiam o silêncio e a distância do mundo, mas que possuíam corações nobres e poderiam ajudar na batalha que se aproximava. Após uma breve conversa, decidem começar pela caverna próxima, onde vivia Tomiro, o Fauno — um homem com pernas e chifres de bode, considerado um dos seres mais inteligentes daquela era. Montados nas criaturas místicas, os dois partem em direção à caverna.

Próximo à floresta do Reino Mágico, os três demônios das sombras avançavam, destruindo a Trilha das Fadas com seu poder maligno. A destruição da Trilha traria o caos para toda Arcânia. Era ela que unia todas as raças, permitindo que transitassem em segurança entre os reinos. Todo aquele que pisava na Trilha estava sob proteção mágica, imune a ataques inimigos. Mas agora… tudo estava ruindo. Os demônios nem precisavam se mover muito para concluir a devastação. Sua magia sombria se espalhava como veneno, percorrendo toda a extensão da Trilha, corrompendo-a por dentro. A proteção de Arcânia estava sendo apagada.

No Reino das Chamas, alguns camponeses foram capturados pela mensageira ao tentarem atravessar aquelas terras. Foram levados à presença do Senhor das Chamas, na esperança de negociar passagem segura. Ao chegarem, curvaram-se diante do trono flamejante. Iam em direção ao Reino Mágico para comercializar criaturas capturadas no Berço de Gaia. Informaram que o Reino Doce estava em ruínas. Mas o Senhor das Chamas não queria ouvir nada. Independentemente de quem fossem, ou de qual reino viessem, ele não aceitava negociação. Com um rugido furioso, bufou chamas ardentes que consumiram os camponeses em segundos. Eles sequer tiveram a chance de implorar. Seu reino crescia a cada minuto. Seus guerreiros de fogo se multiplicavam. Arcânia teria espaço… para tantos reis sedentos por poder?