Temporada 2 · Capítulo 21
O ÚLTIMO FEITIÇO DE DED

No Reino de Gelo, o ar estava tenso e a destruição tomava conta do lugar. Os guerreiros de gelo do Rei Morgot eram destruídos. Não pela força, mas pela quantidade: vários mortos-vivos atacando um único guerreiro de gelo faziam com que ele se despedaçasse. Ded, na entrada da caverna, destruía vários mortos que estavam pelo pátio. Porém, o gelo que havia criado para impedir a saída de mais mortos-vivos da caverna começava a se quebrar, e em breve mais criaturas sairiam. Ele sabia que precisava encontrar o coração daquele problema e, sem hesitar, lançou um raio mágico contra o próprio gelo que havia criado, abrindo a passagem da caverna. Ded destruiu todos os mortos-vivos que já estavam esperando para sair e adentrou a caverna para descobrir de onde eles vinham. Havia chegado a hora de encontrar o responsável por aquilo e destruí-lo, custasse o que custasse! Ded entrou na caverna exalando seu poder mágico ao máximo. Cada morto-vivo que se aproximava era imediatamente congelado, sem que ele sequer precisasse se mover. Sua aura ao redor do corpo fazia aquele ataque passivo agir rapidamente. Era um poder incrível de se ver em ação.

Os mortos-vivos se aproximavam cada vez mais, e Ded desativou seu poder, pois ele sugava energia mágica demais. Então começou a utilizar seu cajado mágico para amplificar seus raios mortais imbuídos de gelo. As criaturas não tinham chance, pois eram fracas em si mesmas e, com aqueles ataques, eram destruídas sem muito esforço. O que dificultava era a quantidade delas, que não parava de aumentar. Ded sentia uma força maligna no fundo da caverna e já entendia, sem dúvidas, de quem se tratava. Era quem ele estava procurando. Boreal! — Enfim te achei. Vamos acabar logo com isso. Ele então acelerou o passo e correu em direção àquela presença. Ded corria e destruía todos os que estavam em seu caminho. Sua magia crescia junto com seu ódio, e nenhum morto-vivo poderia pará-lo.

Ao se aproximar, viu uma luz brilhando. Era um portal mágico. E dele saíam os mortos-vivos. Ded ficou chocado, pois aqueles portais eram extremamente difíceis de serem abertos e, além disso, permaneciam abertos por muito tempo, como era o caso daquele. Então, ao olhar para o outro lado, viu Boreal encarando-o e sorrindo. Ele percebeu que ela estava com o cristal mágico de Veylar e havia absorvido a força mágica dele. Ded então entendeu tudo. Aproximou-se dela e disse: — Sempre soube! Você nunca me enganou, Boreal, mas me surpreende você trair quem te deu um lar. Hoje estou aqui em nome do Reino de Gelo para te matar e acabar com sua traição! Boreal, sorrindo, respondeu: — Sabe, eu nunca enganei ninguém. Só não notou quem não quis! Eu não sirvo para servir, e sim para comandar! A partir de hoje, o Reino de Gelo será apenas ruínas vazias, e com ele cairão seus reis. — O que um velho como você poderia fazer para mudar isso? Ded então fortaleceu sua aura mágica, que transbordou de forma chocante, causando um forte vento no lugar.

Boreal então começou a ter sua aura mágica transformada em uma aura maligna, mostrando que já estava nas sombras havia muito tempo. Quando um mago começa a usar ou estudar intensamente magias proibidas, sua aura se corrompe e se torna maligna. A batalha seria difícil entre os dois, pois seriam dois grandes magos se enfrentando em um ambiente apertado, que não lhes permitiria utilizar grandes feitiços. Ded estava tranquilo e firme, pronto para usar tudo o que tinha. Independentemente do que acontecesse, ele daria sua vida. Ded pensou: — Chegou a hora. Não irei recuar daqui enquanto não matar essa traidora!

Ambos, então, em um piscar de olhos, lançaram raios mágicos mortais um contra o outro, causando um impacto monstruoso quando se atingiram. A caverna começou a tremer e a rachar. Aquele poder iria destruir todo o lugar. Era nítido. Mas nenhum dos dois desistiria da batalha. A magia de Boreal, já imbuída de energia maligna, começava a superar a de Ded. Ao perceber que o raio mágico dela estava se sobrepondo ao seu, ele utilizou um feitiço falado que aumentou sua força mágica. A magia de seu raio cresceu e avançou contra Boreal, que conseguiu desviar do ataque por alguns segundos, causando uma grande destruição atrás dela. Ambos já percebiam que a caverna estava cedendo, mas não paravam. Boreal ordenou que mais mortos-vivos partissem para cima de Ded. Uma pequena fumaça permanecia no ambiente por causa do impacto do raio mágico anterior.

Ded então percebeu que vários mortos-vivos estavam indo em sua direção e disparou uma enxurrada de raios mágicos contra eles, destruindo-os. Ele estava quase sendo cercado novamente pelos mortos-vivos. Então, disparava raios com as mãos e outros ainda mais fortes utilizando seu cajado mágico. Enquanto isso, atrás dos mortos-vivos, Boreal permanecia com o portal aberto, permitindo que mais e mais criaturas entrassem. Ded precisava fechar o portal. Um dos raios foi direcionado ao portal, mas um escudo se ergueu. Boreal estava atenta e tentava protegê-lo. Não seria fácil fechar aquele portal com ela de guarda e inúmeras criaturas avançando em sua direção. Alguns mortos-vivos estavam imbuídos de magia maligna e resistiam muito mais aos raios de Ded. Boreal os fortalecia com sua magia. Seria uma luta difícil dali para frente, e Ded permanecia atento. Ele já pensava em uma estratégia para acabar logo com aquilo ou aquele seria seu fim.

Ded, quase sem saída, recuou um pouco e utilizou um feitiço chamado “Ice Justice”. Boreal, ao sentir que ele usaria aquilo, protegeu-se com sua mana. O feitiço de Ded fez todos naquele ambiente congelarem imediatamente de dentro para fora e, com um estalar de seus dedos, todos se quebraram por inteiro. Mas não foi só isso. Ded se teleportou para a frente de Boreal, que tentou atingi-lo com um raio maligno, mas ele desviou e a prendeu em uma magia de neutralização mágica. Presa, Boreal disse: — Desgraçado! Não consigo me mexer nem liberar minha magia! Ded respondeu: — Vou finalizar essa luta agora mesmo, mas antes... Ele então se virou para o portal e disparou novamente um raio mágico em sua direção, aproveitando que Boreal estava bloqueada. Porém, foi surpreendido por uma defesa que Boreal havia acrescentado ao portal. Quando o raio atingiu o portal, uma descarga mágica atingiu Ded rapidamente, fazendo o feitiço de neutralização sobre Boreal ser desfeito. Ded caiu de joelhos, quase desmaiando por alguns instantes. Sua visão ficou turva e sua respiração, difícil. Ded pensou: — Não acredito... Baixei a guarda!

Boreal, já livre do feitiço de bloqueio, enfurecida, encarou Ded. Com um grito de fúria, lançou um super raio mágico contra seu peito. Ded foi arremessado contra a parede, causando um grande estouro. Ao olhar para Boreal, viu mais mortos-vivos se aproximando por trás dela. Ele sabia que precisava se levantar, mas suas costas estavam destruídas. Parecia ter quebrado uma costela com o impacto contra a parede. Seu nariz e sua testa sangravam. Ele precisava se levantar o quanto antes, pois os mortos-vivos também se aproximavam. Boreal gritou: — Seu velho, acabou! Vou mandar você para o inferno e, logo depois, você vai se encontrar com aquela ridícula da Veylar e com Morgot! Ela então caminhou em sua direção, exalando sua aura obscura e exibindo um sorriso amedrontador.

Ao chegar perto, Boreal o encarou nos olhos, vendo que ele já estava muito ferido. Então, lançou um feitiço que fez enormes espinhos de gelo crescerem no chão, atravessando seu corpo. Naquele momento, Ded gritou de dor. Seus ouvidos só conseguiam ouvir um som agudo e ensurdecedor. Parecia estar chegando ao seu limite. Os mortos-vivos aguardavam atrás de Boreal, sedentos para atacar Ded, enquanto ela apenas o observava, quase morto à sua frente. A caverna estremecia, e um vento sombrio soprava pelo ambiente. Boreal sorria e gargalhava. Estava pronta para acabar com ele. — Ded, acabou aqui! Meu poder está acima do seu. Jamais perderia para um mago velho como você! Agora descanse em paz! Ded então respondeu com dificuldade para falar e respirar: — Sinto que a subestimei. Seu poder é incrível, mas só é incrível porque você usou o cristal. Nunca passará de uma maga invejosa. Seu coração é cheio dela e, não importa aonde você vá, será sempre alguém que estará à espreita, e não no centro. Sua morte será terrível. Uma pena que não verei!

Furiosa ao ouvir aquelas palavras, Boreal ordenou que os mortos-vivos partissem para cima dele e comessem até o último pedaço do mago. Eles então correram na direção de Ded, que não conseguia se proteger. Ele ainda tentava realizar alguns golpes, mas as criaturas já estavam amontoadas sobre ele. Boreal então deu as costas e voltou para perto do portal. Poucos mortos-vivos ainda restavam no Reino Doce para passar por ali, mas ela precisava deixar todos passarem, conforme as ordens do Ceifeiro. De longe, ela ouvia os gritos de Ded, que tentava se desvencilhar dos mortos-vivos que o mordiam e atacavam. Ded, ali no meio, utilizava suas últimas forças para concentrar sua última magia em seu cajado. Seria seu ato final para encerrar aquela batalha!

Ded então pensou: — Chegou a hora. É incrível como a vida passa rápido, principalmente quando estamos internamente felizes. Hoje me sinto feliz por tudo o que fiz por este reino e vou finalizar isso ajudando como posso. Com o erguer de sua mão e seu cajado, Ded lançou um poderoso raio mágico, utilizando sua última força mágica, diretamente contra o teto da caverna. Ao ser atingido, o teto causou uma enorme explosão, fazendo todo o lugar começar a desabar. Rochas de gelo caíram sobre os mortos-vivos e sobre Ded, matando-os na hora. Em questão de segundos, tudo começou a desmoronar. Boreal, ao sentir o tremor, olhou para o teto e viu várias rochas de gelo começarem a cair. Por pouco, conseguiu desviar delas. Mas então todo o teto veio abaixo, caindo sobre o portal e fazendo com que ele se fechasse. Boreal então se teleportou para fora da caverna para se salvar. Todo o lugar foi enterrado naquela montanha. Nenhum morto-vivo sairia mais dali. A explosão pôde ser ouvida de longe. E, dentro daquela caverna, o mago de gelo descansaria para todo o sempre, em seu último ato de proteção ao reino que sempre amou.