Temporada 2 · Capítulo 20
A PARTIDA DAS FADAS

Uma batalha sempre traz consigo perdas e sofrimento. Aquele era um dos piores momentos para as fadas. Ter que enfrentar um inimigo como aquele havia sido difícil e, pouco a pouco, elas perdiam seu lar. Ninguém sabia o que poderia acontecer dali para frente. Com todo o reino destruído, para onde iriam? O que fariam? Todos aguardavam sua rainha na praia, à espera de uma luz que lhes mostrasse como continuar. Ainda restavam muitas bestas espalhadas pelo reino. Era perigoso continuar lutando, pois todos já estavam chegando aos seus limites. Mas, naquele momento, Heliara estava prestes a colocar um fim no causador de todo aquele grande mal. De volta ao local onde Heliara e Vermax mantinham Haygor preso, a rainha caminhou até ficar diante dele e o encarou enquanto ele agonizava de dor. Haygor se preparava para tentar escapar, mas, antes, contou um pouco de sua história. Suas palavras acabaram surpreendendo Heliara e Vermax. As coisas nem sempre eram como pareciam. Haygor havia sofrido muito, e viver no Reino das Bestas sempre fora seu refúgio. Mas cada um dita o próprio destino e, embora Heliara tivesse se sentido tocada por tudo o que ouvira, aquele era o momento de finalizar aquilo. Até porque Haygor poderia estar usando aquele tempo para se recuperar e atacar novamente.

Heliara então começou a emanar uma poderosa magia, que saía de seu corpo com uma pressão enorme. Haygor ficou paralisado ao presenciar tamanha força vindo da Rainha das Fadas. Ele começou a tremer. Talvez, naquele momento, finalmente tivesse percebido que aquele seria o seu fim. Havia subestimado uma fada e agora pagaria com a própria vida por isso. Haygor gritou: — Espere! Não me toque, sua fada ridícula! Eu vou matar você! Heliara, sem hesitar, aproximou-se ainda mais e tocou sua testa. No exato momento em que sua mão tocou Haygor, um pequeno estalo ecoou pelo ambiente, seguido por um som agudo. Haygor ficou completamente paralisado, enquanto Heliara permanecia com a mão sobre sua cabeça. Seu corpo começou a sofrer mudanças. As raízes começaram a entrar em seu corpo e sua pele lentamente se transformava em uma grossa casca. Haygor estava se transformando em uma enorme árvore. Heliara disse: — Está feito! Feitiço Transformação da Árvore Sagrada! Esse feitiço transforma aquele que eu toco em uma árvore poderosa, mas nunca ninguém resistiu. Ao concluir a transformação, se a pessoa não suportar, a árvore se destrói. Essa luta acabou! Haygor respondeu, chorando: — Eu não vou resistir... Mas que assim seja, Rainha das Fadas. Você me venceu. Agora posso ir em paz! Um vento soprava pelo ambiente enquanto a transformação se concluía. O chão tremia, e Haygor se transformava em uma enorme árvore repleta de flores. A magia pairava por todo o lugar. Vermax se aproximou de Heliara para observar aquilo de perto. Era impossível imaginar alguém resistindo a um poder como aquele. A Rainha das Fadas jamais desistiria de uma luta e, naquele momento, havia mostrado o tamanho de seu poder.

Vermax disse: — Já era hora! A senhora conseguiu, minha rainha! Heliara respondeu: — Ainda não acabou por completo. O exército que se aproxima é apenas uma parte do que ainda existe em nossas terras. Esse feitiço também me deixou quase no limite, Vermax. Precisamos ir embora. Vermax concordou. Foi então que perceberam que a árvore na qual Haygor havia se transformado começava a pegar fogo e se despedaçar, marcando definitivamente o fim do comandante das bestas. Os pedaços caíam e eram levados pelo vento. A árvore era enorme e possuía uma aparência semelhante ao rosto de uma besta, que lentamente se desfazia. Heliara se ajoelhou e pediu para que Gaia cuidasse daquela situação e recebesse aquele ser em seus braços. De repente, um forte trotear pôde ser ouvido. A Rainha das Fadas rapidamente se levantou e ficou ao lado de Vermax. Os dois se prepararam para enfrentar mais uma parte do exército das bestas que se aproximava.

As criaturas chegaram e os cercaram. Bestas, minotauros, criaturas voadoras, pequenos dragões, lagartos, entre outras. Heliara energizou sua magia, enquanto Vermax imbuía sua força mágica em sua lâmina. As criaturas avançaram e rapidamente eram destruídas pela espada de Vermax, que as partia ao meio. Ele voava sobre elas e as decapitava pelo alto, enquanto Heliara fazia suas raízes brotarem do chão como enormes espinhos pontiagudos, atravessando as criaturas e levando-as à morte. A batalha fervia. Ambos davam tudo de si para acabar com aquelas criaturas. As bestas viam seu mestre destruído e ficavam ainda mais enfurecidas. Atacavam sem pensar. Magia e faíscas voavam por todos os lados. Os minotauros eram fortes e mais inteligentes. Conseguiam se desviar dos ataques de Vermax e desferiam poderosos contragolpes, obrigando-o a recuar algumas vezes. Mas, quando se aproximavam de Heliara, ela rapidamente os prendia com suas raízes, permitindo que Vermax os finalizasse. Naquele momento, os dois formavam a melhor dupla para deter as bestas. Heliara suava. Suas forças chegavam rapidamente ao limite, pois aquele feitiço sugava sua energia mágica. Eles precisavam acabar com aquilo o quanto antes. Heliara levantava voo para ampliar seu poder sobre o chão, fazendo os espinhos se espalharem, mas era derrubada pelas criaturas voadoras. Era uma batalha difícil contra tantos inimigos ao mesmo tempo.

Vermax, também já exausto, lançou um raio mágico do alto, destruindo diversas criaturas que estavam no chão. O raio as desintegrava rapidamente, enquanto Heliara utilizava um feitiço de pólen encantado que fazia as bestas adormecerem e caírem no chão. Em seguida, ela as finalizava com suas raízes. Heliara, ofegante, encostou-se em Vermax e disse: — Precisamos sair daqui, Vermax! Ele respondeu, também chegando ao seu limite: — Sim, minha senhora. Minha magia está no limite. Os dois então levantaram voo, fugindo de algumas criaturas em direção a outra área, enquanto, atrás deles, as bestas seguiam furiosas. Durante o caminho, precisavam se desviar de outras que surgiam tentando ataques-surpresa. Estavam tão cansados que até mesmo voar havia se tornado difícil e lento, mas continuavam com as poucas forças que ainda possuíam. Por um instante, Heliara sentiu algo à frente. Eram aquelas energias mágicas. Ela e Vermax chegaram a um local mais aberto e se depararam com os dois seres que destruíam as bestas à sua frente. Os dois pararam e observaram de longe.

Era um homem que aparentava ser um mago e possuía uma magia extremamente poderosa. Com seu cajado, desintegrava rapidamente as bestas. Ao seu lado estava uma mulher forte, portando uma espada afiada com a qual partia as criaturas ao meio. Suas roupas douradas e brancas carregavam símbolos do sol. Heliara nunca havia visto nada parecido. Vermax também observava, impressionado com suas habilidades. O mago levantou voo e, simplesmente, fez um enorme meteoro atingir as bestas restantes, causando uma grande explosão e enchendo o lugar de fumaça. Ambos demonstravam um poder incrível diante das fadas. Aos olhos de Vermax e Heliara, pareciam amigáveis. Os dois começaram a se aproximar lentamente. O mago e a garota perceberam a aproximação e seguiram na direção deles. Enquanto caminhavam, a garota arrancava a cabeça das bestas que ainda se moviam pelo chão. O mago cochichou algo para ela, mas Heliara e Vermax não conseguiram escutar. Então, ao ficarem frente a frente, os dois abaixaram o cajado e a espada, demonstrando que estavam em paz.

Os quatro permaneceram frente a frente, observando uns aos outros enquanto o vento soprava entre eles. Heliara tentava captar as intenções daqueles dois para ter certeza de que realmente não eram inimigos. Até que o mais velho se apresentou como Althamir, o mago dos Cavaleiros Celestiais, e apresentou a garota como Freya, a Cavaleira Celestial. Ambos eram do Reino Celestial e haviam sido enviados para ajudar na batalha contra o Reino das Bestas. Althamir disse: — É uma honra conhecer a Rainha das Fadas. Disse ele com um sorriso estranho. Freya disse: — É um prazer conhecê-los. Uma pena que seja nessas circunstâncias. Viemos ajudar com o possível e já escoltamos várias fadas em segurança até a praia. Heliara respondeu: — O prazer é nosso. Somos gratos pela presença de vocês aqui e por nos ajudarem. Lamento, mas nunca ouvi falar desse reino antes. Porém, creio que este não seja o melhor momento para isso. Sinto que mais criaturas estão se aproximando de nós! Vermax completou: — Minha rainha tem razão. Esse reino é novo? Althamir respondeu: — Como sua rainha disse, este não é o melhor momento. Precisamos ir logo. Sabemos o melhor caminho. Vermax ficou desconfiado daquilo, mas concordou em segui-los pelo caminho seguro até a praia. Freya tomou a frente, e os quatro saíram correndo em direção à praia.

Heliara então sentiu que havia várias bestas voando logo à frente. Ela tomou a dianteira e pediu para que os outros permanecessem um pouco atrás. Subiria voando e as derrubaria antes que percebessem sua presença. Heliara se teleportou para o meio das criaturas e, ao energizar sua magia, liberou raios mágicos para todos os lados, atingindo todas elas, que começaram a cair em direção ao chão. Escondidos atrás dos troncos, Vermax, Althamir e Freya observavam Heliara acabar com as criaturas. Freya disse: — Essa magia é incrivelmente poderosa. A Rainha das Fadas é incrível! Althamir respondeu: — Eu poderia ter feito aquilo! Ao escutar o comentário, Vermax franziu as sobrancelhas e permaneceu pensativo enquanto aguardava Heliara finalizar aquelas criaturas. Quando terminou com as que voavam, Heliara desceu ao chão e enforcou as que ainda estavam em terra, liberando o caminho. Freya então tomou novamente a frente, agradecendo pela atitude da Rainha das Fadas. Os quatro seguiram correndo em direção à praia. O sol já estava baixo, mas, de dentro da floresta, tudo ainda parecia escuro por causa da fumaça.

Ao chegarem à praia, avistaram um enorme navio ancorado próximo à margem. Muitas fadas e outras criaturas aguardavam sobre a areia, protegidas por aqueles seres vestidos de dourado e branco. Alguns deles também eram fadas. Quando Heliara viu seu povo sobrevivente, agachou-se e chorou. Eram tantas situações estranhas. O que era aquele navio? Quem eram aqueles seres? Mas ela só conseguia se concentrar em seu povo que ainda estava vivo e em como haviam sido ajudados a chegar até ali. Vermax encontrou Viseryon, Acer e Alinda. Todos se abraçaram ao perceberem que estavam vivos. Os Cavaleiros Celestiais se apresentaram à Rainha das Fadas: Aurelion, Thalíria, Nuski e Lunara. As bestas que conseguiam chegar até aquele local eram rapidamente abatidas pelos cavaleiros do Reino Celestial. A Rainha das Fadas encontrou Alinda entristecida e soube da partida de Bloom. Seu coração se despedaçou ainda mais com a notícia. Muitas fadas haviam morrido, mas algumas sempre eram mais próximas. Althamir tomou a frente em meio às fadas e disse que precisavam sair dali imediatamente: — Precisamos ir! As bestas estão se aproximando da praia em maior quantidade. Nossa rainha dará asilo aos sobreviventes e, futuramente, poderemos retomar estas terras! Vermax respondeu imediatamente: — Não podemos abandonar nosso lar! Se vieram nos ajudar, acabem com as bestas que ainda restam! Heliara, cabisbaixa, perguntou: — Quem seria a rainha de vocês? A Cavaleira Celestial Lunara respirou fundo, pronta para dizer o nome, mas foi interrompida por Althamir, que respondeu: — Vocês saberão se vierem conosco e aceitarem a bondade dela, salvando o que resta de seu povo! Que prova maior precisam de que estamos ao lado de vocês? Ele continuou: — Nós nos arriscamos vindo até aqui. Ajudamos a maioria daqueles que estão aqui. Heliara então olhou para trás. Viu a floresta em chamas. Tudo desabava. Depois, voltou seu olhar para seu povo. Alguns choravam pelas perdas, outros estavam feridos. Foi então que tomou uma decisão. — Meu povo, hoje iremos com eles. Preciso prezar pela segurança de vocês! Estamos feridos, debilitados e cansados. É apenas uma questão de tempo até que as bestas comecem a chegar aqui em maior número. — Iremos com eles pelo nosso bem! Vermax tentou convencê-la de que talvez aquela não fosse uma boa ideia, mas a decisão já estava tomada. As fadas começaram a entrar no navio. Cada uma encontrava um canto onde pudesse se jogar e finalmente descansar em paz, enquanto os Cavaleiros Celestiais protegiam a entrada até que todos estivessem a bordo.

Em um dos cantos, Alinda se sentou. Cabesbaixa, observava o pôr do sol de dentro do navio. Vermax então se sentou ao seu lado e tentou consolá-la. — Não fique assim. Entendo sua dor, mas sei que Bloom lutou muito. Não foi culpa sua! Alinda respondeu, chorando: — Eu poderia ter ficado com ela. Não precisava ter me afastado. Sempre soube que precisava protegê-la, mas decidi sair tentando destruir o máximo de bestas possível. Quando consegui voltar, ela já estava morta. Vermax então a abraçou, tentando consolá-la. Todos dentro do navio estavam extremamente abalados. Sua terra havia sido destruída diante de seus olhos e eles não haviam conseguido resistir. Agora precisariam abandonar seu reino. Era uma situação triste que despedaçava o coração de todos aqueles que ainda estavam vivos, incluindo sua rainha, que permanecia estática, pálida e sem forças. Vermax disse: — Nós voltaremos, Alinda. Ainda voltaremos para nossa casa e vamos reconstruir tudo. — Sua dor vai passar. Bloom ficará orgulhosa quando retornarmos e reconstruirmos tudo como antes, ainda melhor. Acredite! Alinda concordou, mas disse sentir algo que a incomodava naquelas pessoas do Reino Celestial. Vermax também concordou e pediu que ela tomasse cuidado com tudo e todos, permanecesse alerta, mas que descansasse.

Alinda estava cansada e exausta, mas não conseguia parar de pensar na amiga que havia perdido durante a batalha. As duas sempre faziam tudo juntas. Eram inseparáveis. Bloom sempre cozinhava para todo o reino. Era especialista em comidas feitas com cogumelos e sempre procurava oferecer o melhor quando preparava uma refeição. Alinda sempre a ajudava com os ingredientes. As duas também treinavam juntas, e Bloom sempre deixou claro que odiava batalhas. Sabia se proteger e atacar quando necessário, mas sempre havia fugido daquele tipo de situação. Mas, com toda certeza, tudo aquilo ajudaria Alinda a se tornar ainda mais forte, caso houvesse uma próxima vez em que precisasse proteger um amigo. Em sua memória, sua amiga permaneceria marcada para todo o sempre.

Em outro lado do navio, Viseryon e Acer também descansavam enquanto conversavam. Os dois estavam exaustos e, além disso, muito abalados pela perda de Bloom e de outros amigos. Acer disse: — Sinceramente, não gostaria de atravessar o mar. Esse Reino Celestial, do qual nunca ouvimos falar, é estranho. Eles nem quiseram dizer o nome da rainha deles. Viseryon respondeu: — Nossa rainha fez a melhor escolha. Se olharmos para o nosso povo, todos estão exaustos e feridos. Permanecer na praia tornaria fácil para as bestas acabarem com o que restou de nós. — Foi uma escolha difícil, mas precisamos entender. Acer respondeu: — Realmente, pensando por esse lado... Só espero que, quando chegarmos a esse lugar, não encontremos algo ainda pior. O pôr do sol estava lindo de se admirar, mas ninguém conseguia enxergá-lo daquela forma diante de tudo o que haviam passado. Todos estavam em seus limites. Viseryon permanecia atento a cada movimento daqueles seres que nunca haviam visto, pois agora praticamente estavam nas mãos deles. Ele deixou Acer descansar e começou a caminhar pelo navio, observando tudo ao redor.

Depois que todos embarcaram, o navio partiu em direção ao Reino Celestial. A viagem seria longa e cansativa. Na ponta do navio, a Rainha das Fadas observava o horizonte. Triste e sem forças, naquele momento só conseguia pensar na sobrevivência de seu povo. Vermax tentava consolá-la. Pela primeira vez na história, as fadas deixavam seu lar apenas para tentar sobreviver. Não sabiam quais desafios ainda enfrentariam, muito menos se algum dia conseguiriam retornar à sua terra em segurança. Alguns elfos começaram a cantar uma canção triste. Pouco a pouco, todos do Reino das Fadas também uniram suas vozes à canção. A tristeza tomava conta do navio enquanto ele se distanciava daquilo que um dia havia sido seu reino. Um lugar de magia, vida e esperança. Agora, uma terra devastada e tomada por inimigos. Mas a esperança sempre havia morado no coração daquele povo. E eles sabiam que, um dia, retornariam à sua terra e reconstruiriam tudo novamente, quantas vezes fossem necessárias. Heliara deixava suas lágrimas caírem sobre a água enquanto liberava um pólen mágico que levava esperança e cura ao seu povo dentro do navio. Eles passariam por aquilo juntos até o fim. E um dia retornariam.